Fenômeno climático El Niño pode alterar chuvas, reduzir recuperação de reservatórios e aumentar o acionamento de térmicas, com reflexos na conta de luz.
A possibilidade de um El Niño de forte intensidade no segundo semestre amplia a atenção do setor elétrico brasileiro sobre reservatórios, consumo de energia e necessidade de acionamento de usinas térmicas. Na semana passada, a Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, emitiu alerta para que operadores de hidrelétricas da região Sul reforcem medidas de segurança diante do risco de chuvas intensas no período.
O alerta foi motivado pela elevada probabilidade de ocorrência de um El Niño de fortes proporções, segundo a agência reguladora. A Aneel informou que são necessárias ações preventivas para identificar e reduzir fatores de risco nas estruturas de geração hidrelétrica, especialmente em áreas que podem ser afetadas por volumes elevados de chuva.
A preocupação com chuvas no Sul é apenas uma das consequências possíveis do fenômeno sobre o sistema elétrico brasileiro. Especialistas afirmam que o El Niño também pode provocar aumento da demanda por eletricidade, maior uso de usinas térmicas, elevação de custos na conta de luz e riscos operacionais associados a eventos extremos, como incêndios, tempestades e ventos fortes.
Em nota divulgada nesta segunda-feira, 15, a Climatempo informou que temperaturas mais altas tendem a elevar o consumo de energia elétrica no país. Segundo a empresa, o aumento ocorre principalmente pelo uso mais intenso de equipamentos de refrigeração, como aparelhos de ar-condicionado e ventiladores, em períodos de calor.
“No setor de energia, as temperaturas mais altas tendem a elevar o consumo de eletricidade, especialmente por conta do uso de aparelhos de refrigeração”, afirmou a Climatempo.
A empresa também alertou que a irregularidade das chuvas pode afetar reservatórios e exigir planejamento mais cauteloso do sistema elétrico. O risco de atraso no início do período úmido no Sudeste e no Centro-Oeste é considerado relevante porque essas regiões concentram parcela significativa da geração hidrelétrica e da capacidade de armazenamento de energia do país.
“Ao mesmo tempo, a irregularidade das chuvas pode afetar reservatórios e exigir planejamento mais cuidadoso do sistema elétrico. Há ainda o risco de atraso no início do período úmido no Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram cerca de 70% da produção hidrelétrica”, informou a Climatempo.
O início do El Niño foi confirmado na quinta-feira, 11, pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA. A entidade estima que há 63% de chance de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre novembro e janeiro. O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar o regime de chuvas em diferentes regiões do mundo.
No Brasil, o fenômeno costuma estar associado ao aumento das chuvas na região Sul e à redução de precipitações em outras áreas do país. Para o ex-diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico, Luiz Eduardo Barata, esse comportamento tem impacto direto sobre os reservatórios mais relevantes para o sistema brasileiro.
“O El Niño se caracteriza por intensificação de chuvas no Sul e por seca no restante do país”, afirmou Barata. “Como nossos reservatórios estão no Sudeste e Nordeste, ele reduz a energia armazenada.”
As hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste respondem por cerca de dois terços da capacidade nacional de armazenamento de energia. Os reservatórios dessas regiões estão em patamar inferior ao observado em anos de maior segurança hídrica, o que aumenta a preocupação com o comportamento das chuvas no período úmido.
O Brasil vive atualmente uma situação de maior oferta de energia durante o dia, em razão da geração solar e eólica, mas pode precisar de eletricidade adicional no início da noite. Esse período concentra maior pressão sobre o sistema, principalmente quando há aumento de consumo por calor e queda da geração solar. Caso as ondas de calor previstas se confirmem, o acionamento de térmicas pode ser ampliado.
As usinas térmicas têm custo de geração mais elevado do que outras fontes e esse custo é repassado aos consumidores por meio das bandeiras tarifárias. Atualmente, a bandeira amarela representa adicional de R$ 1,88 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. A bandeira vermelha patamar 1 acrescenta R$ 4,46 a cada 100 kWh, enquanto a bandeira vermelha patamar 2 eleva o custo em R$ 7,87 a cada 100 kWh.
Para Victor Hugo Iocca, diretor de Energia Elétrica da Associação dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres, a chance de acionamento da bandeira vermelha aumenta a partir de agosto.
“A probabilidade de bandeira vermelha é maior a partir de agosto”, afirmou Iocca.
A combinação entre estiagem severa, aumento do consumo e necessidade de acionamento de térmicas pode produzir efeitos também nos anos seguintes. Caso o sistema precise recorrer com maior frequência às usinas de custo mais alto, parte desse impacto poderá aparecer nos reajustes tarifários discutidos anualmente entre distribuidoras de energia e Aneel.
Outro ponto de atenção é a recomposição dos reservatórios no período chuvoso, que começa por volta de setembro e segue até março do ano seguinte. Se o estoque de água não for reposto em volume suficiente, o país poderá precisar manter maior uso de térmicas também em 2027. Esse cenário dependerá da intensidade do El Niño, da distribuição das chuvas e do comportamento da demanda por energia.
Iocca defende que o governo avalie medidas para reduzir a necessidade de térmicas no início da noite. Entre as alternativas citadas estão o horário de verão e programas de resposta da demanda, nos quais grandes consumidores recebem incentivo para diminuir o uso de eletricidade em horários críticos.
O ex-diretor da Aneel e da Agência Nacional de Águas, Jerson Kelman, afirmou que o setor elétrico precisa avançar na adaptação a eventos extremos, que podem ser intensificados pela combinação entre El Niño e mudanças climáticas. Entre os riscos estão tempestades, incêndios, ventos fortes e interrupções no fornecimento de energia.
Kelman, no entanto, defende cautela na avaliação dos impactos. Para ele, o comportamento do fenômeno precisa ser acompanhado ao longo dos próximos meses, com monitoramento contínuo dos eventos climáticos e dos reservatórios.
Ele afirmou que a situação atual do país é diferente da enfrentada na crise energética de 2001, devido à ampliação da geração renovável, especialmente solar e eólica.
“Diferente de 2001, hoje temos exército de placas solares e eólicas”, disse Kelman. “Para que esse exército possa mitigar a possibilidade de problema energético, é preciso que hidrelétricas possam deixar de funcionar ou funcionar pouco nas horas em que tem sol ou vento.”
Essa estratégia depende de ajustes na operação do sistema e de negociações com outros usuários da água, como prefeituras, indústrias e produtores rurais. Em situações extremas, a Agência Nacional de Águas e o Operador Nacional do Sistema Elétrico já negociam esquemas operacionais mais restritivos em hidrelétricas, com o objetivo de preservar a segurança do abastecimento e reduzir riscos ao sistema elétrico.
O avanço do El Niño será acompanhado pelo setor elétrico nos próximos meses. A intensidade do fenômeno, o volume de chuvas no Sudeste e Centro-Oeste, o comportamento dos reservatórios e a evolução do consumo serão fatores determinantes para definir o grau de acionamento das térmicas e o impacto na conta de luz dos consumidores.
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Lara Gabriely escreve sobre assuntos locais, mas também sobre assuntos relacionados à política dos estados do Paraná e Santa Catarina, além de outros fatos interesse regional.
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