Dados coletados pelo satélite Sentinel-6 Michael Freilich mostram que o El Niño de 2026 continuou ganhando força no início de junho no Oceano Pacífico. O fenômeno foi oficialmente confirmado em 11 de junho pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, após a identificação conjunta de alterações nas temperaturas do oceano e na circulação atmosférica.
O mapa divulgado pela Nasa apresenta uma faixa de níveis do mar acima do normal nas áreas central e oriental do Pacífico equatorial. Os registros foram obtidos em 8 de junho, poucos dias antes da confirmação oficial, e reforçam as evidências de que uma grande quantidade de calor está se acumulando no oceano.
Satélite identifica áreas mais altas e quentes no oceano
O Sentinel-6 Michael Freilich mede a altura da superfície dos oceanos com instrumentos de alta precisão. Lançado em 2020, o satélite integra uma missão internacional liderada pela Agência Espacial Europeia, com participação da Nasa e de outras instituições científicas.
As medições ajudam os pesquisadores a identificar áreas onde a água está mais quente. Isso ocorre porque o aquecimento provoca a expansão da água, elevando a superfície do mar em alguns centímetros. Dessa forma, a altura do oceano funciona como um indicador da quantidade de calor presente não apenas na superfície, mas também em camadas mais profundas.
No mapa de 8 de junho, as regiões representadas em vermelho indicam níveis superiores à média histórica. As áreas em branco correspondem a condições próximas do normal, enquanto os trechos em azul mostram níveis mais baixos. Os sinais relacionados às estações do ano e à elevação de longo prazo dos oceanos foram retirados da análise para destacar as variações ligadas a fenômenos naturais como o El Niño.
NOAA confirma retorno do El Niño
A NOAA informou que as condições de El Niño se desenvolveram durante o mês anterior à confirmação. Na primeira semana de junho, a região conhecida como Niño 3.4, usada como uma das principais referências de monitoramento, registrou temperatura superficial 0,7°C acima da média.
Outras áreas do Pacífico equatorial também apresentaram aquecimento. Na região Niño 1+2, mais próxima da costa da América do Sul, a anomalia chegou a 2,1°C. Os dados oceânicos foram acompanhados por mudanças nos ventos e na circulação da atmosfera, fatores necessários para caracterizar o fenômeno.
O El Niño é a fase de aquecimento do ciclo El Niño-Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENOS. O fenômeno costuma ocorrer em intervalos irregulares de dois a sete anos e pode permanecer ativo por aproximadamente nove a 12 meses.
Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste e empurram as águas quentes em direção à Ásia e à Oceania. Quando esses ventos enfraquecem, o calor acumulado no Pacífico ocidental avança para o centro e o leste do oceano, modificando a circulação atmosférica e os padrões de chuva em diferentes partes do mundo.
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Ondas de Kelvin indicaram formação do fenômeno
Antes da confirmação do El Niño, o Sentinel-6 já havia registrado ondas de água quente avançando em direção à América do Sul. Conhecidas como ondas de Kelvin, essas formações podem atingir centenas de quilômetros de largura e são observadas como sinais importantes do desenvolvimento do fenômeno.
Uma pequena onda foi identificada perto da Micronésia no fim de janeiro, mas perdeu força em fevereiro. Outra surgiu em março e avançou para o leste. Em meados de maio, o nível do mar nas proximidades do Peru estava cerca de 15 centímetros acima das médias de longo prazo.
Ao chegar ao Pacífico oriental, essas ondas aprofundam a camada de água quente e dificultam a subida de águas frias e ricas em nutrientes. Esse processo, chamado de ressurgência, é importante para os ecossistemas marinhos e para a atividade pesqueira na costa das Américas.
A cientista Severine Fournier, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, afirmou que as condições observadas no Pacífico ocidental em 8 de junho apresentavam semelhanças com as registradas no mesmo período de 1997, ano marcado por um El Niño excepcionalmente forte. A comparação, entretanto, exige cautela. Em 2026, o aquecimento no leste do oceano avançava mais lentamente e havia menos ondas de Kelvin acumuladas.
Intensidade ainda depende da evolução nos próximos meses
A NOAA espera que o fenômeno continue se fortalecendo até o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte, correspondente ao verão no Brasil. Os modelos indicam 63% de probabilidade de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Caso essa projeção se confirme, o episódio poderá ficar entre os mais intensos da série histórica iniciada em 1950.
Apesar disso, a intensidade ainda não está definida. A Nasa ressalta que cada evento apresenta características próprias e que novas observações serão necessárias para avaliar se o aquecimento manterá o ritmo atual. Mesmo episódios considerados muito fortes não provocam os mesmos efeitos em todas as regiões.
A Organização Meteorológica Mundial havia estimado, antes da confirmação, uma probabilidade de 80% de formação do El Niño entre junho e agosto. A instituição também alertou que o fenômeno tende a aumentar as temperaturas globais e alterar os padrões de precipitação, embora os impactos dependam da intensidade, da duração e da interação com outros sistemas climáticos.
O que o El Niño pode provocar no Brasil
Historicamente, o El Niño está associado à redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, com maior risco de estiagens, diminuição da umidade do solo e impactos sobre os recursos hídricos. No Sul, o fenômeno costuma favorecer volumes de chuva acima da média, elevando a possibilidade de temporais, alagamentos e cheias de rios.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais observa que os efeitos podem variar conforme a época do ano. Na Região Sul, os impactos mais significativos costumam aparecer durante a primavera. No Norte e no leste da Amazônia, assim como no norte do Nordeste, a influência tende a ser percebida principalmente durante o período chuvoso do primeiro semestre.
O El Niño também ocorre em um planeta que já registra temperaturas mais elevadas devido às mudanças climáticas. A Organização Meteorológica Mundial afirma que o fenômeno não é a causa do aquecimento global, mas pode ampliar riscos de ondas de calor, chuvas intensas e secas ao redistribuir calor e umidade na atmosfera. O episódio de 2023-2024 esteve entre os cinco mais fortes já observados e contribuiu para as temperaturas globais recordes registradas em 2024.
O acompanhamento realizado por satélites, boias oceânicas e modelos meteorológicos será fundamental para definir a intensidade e os possíveis efeitos do evento nos próximos meses. Para acompanhar outras pesquisas sobre o clima, o oceano e o planeta, acesse também a editoria de ciência do Jornal da Fronteira.
A confirmação do El Niño permite que órgãos públicos, produtores rurais e setores ligados à energia, à água e à defesa civil reforcem o planejamento. Embora ainda existam incertezas sobre sua força máxima, os dados atuais mostram que o aquecimento do Pacífico já está alterando o sistema oceânico e atmosférico.

Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
Nota Editorial: Este conteúdo faz parte da cobertura jornalística do Jornal da Fronteira, feito por humano com ajuda de ferramentas de inteligência artificial, sob revisão de editor humano.
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