Uma múmia com cerca de 1.100 anos voltou a chamar a atenção da comunidade científica após uma nova série de exames conduzidos no Chile. Encontrados décadas atrás no Deserto do Atacama, os restos mortais pertencem a um homem que viveu entre os séculos IX e XI e cuja morte, segundo as análises mais recentes, está diretamente ligada a um grave acidente em uma antiga mina de turquesa. O estudo lança nova luz sobre as condições de trabalho, os riscos enfrentados por populações pré-colombianas e os limites da vida humana em um dos ambientes mais áridos do planeta.
O corpo foi desenterrado na década de 1970, mas somente agora passou por exames aprofundados com tecnologias modernas. A investigação foi conduzida por Catalina Morales e Francisco Garrido, pesquisadores do Museu Nacional de História Natural do Chile, e divulgada pelo portal científico Live Science. A reavaliação permitiu reconstruir com mais precisão as circunstâncias da morte e o contexto histórico do indivíduo.
De acordo com o estudo, o homem tinha entre 25 e 40 anos quando morreu, em algum momento entre os anos 894 e 1016 d.C. A datação indica que ele viveu em um período marcado pela intensa exploração mineral na região do Atacama, especialmente de turquesa, um material valorizado tanto para ornamentos quanto para trocas comerciais entre povos andinos.
Ferimentos graves indicam acidente em mina
Radiografias e tomografias computadorizadas revelaram um conjunto impressionante de lesões traumáticas. O indivíduo sofreu fraturas severas na coluna vertebral superior, vértebras deslocadas, fraturas na omoplata e na clavícula, além de múltiplas costelas quebradas e colapso da caixa torácica. Segundo os pesquisadores, esse padrão de ferimentos é compatível com danos extensos na medula espinhal, o que provavelmente causou morte quase imediata.
Um dos aspectos mais intrigantes da análise é a ausência de lesões no crânio, no pescoço e nos braços. Esse detalhe levou os cientistas a concluir que o homem possivelmente estava de cabeça para baixo quando o acidente ocorreu. A hipótese mais aceita é que ele estivesse trabalhando dentro da mina, talvez utilizando ferramentas de pedra para extrair turquesa, ou que tenha instintivamente protegido a cabeça com os braços durante o desmoronamento.
O que a múmia revela sobre a mineração antiga
O estudo reforça a ideia de que a mineração pré-colombiana envolvia riscos extremos. Sem técnicas modernas de escavação ou estruturas de segurança, trabalhadores estavam expostos a deslizamentos de rochas e colapsos súbitos. A múmia do Atacama se torna, assim, um raro testemunho físico das condições perigosas enfrentadas por esses grupos humanos há mais de um milênio.
A conservação do corpo foi favorecida pelas condições ambientais únicas do Atacama, considerado um dos desertos mais secos do mundo. A baixa umidade e a composição do solo contribuem para a preservação natural de tecidos e ossos, permitindo estudos detalhados mesmo após séculos. Casos como esse ajudam os cientistas a compreender melhor práticas culturais, modos de vida e eventos traumáticos do passado.
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