Quando um livro não prende: desistir da leitura é fracasso ou maturidade leitora?

Quando um livro não prende: desistir da leitura é fracasso ou maturidade leitora?

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Poucas situações geram tanta culpa silenciosa entre leitores quanto abandonar um livro antes da última página. O marcador parado, o volume esquecido na estante e a sensação incômoda de “não dei conta”. Em um cenário em que a leitura é frequentemente associada a disciplina, mérito intelectual e até status cultural, desistir de um livro costuma ser tratado como falha. Mas essa lógica resiste a uma análise mais honesta da experiência de leitura? Em tempos de excesso de títulos, pouco tempo disponível e mudanças no perfil do leitor contemporâneo, cresce o debate sobre o direito de largar um livro que não funciona. A pergunta central não é apenas se isso é aceitável, mas se insistir pode ser, em muitos casos, contraproducente.

A leitura como experiência, não como obrigação

A leitura, antes de qualquer coisa, é uma experiência subjetiva. Um mesmo livro pode ser transformador para um leitor e irrelevante para outro. Ainda assim, persiste a ideia de que certas obras “devem” ser lidas até o fim, seja por seu prestígio, por terem sido indicadas por alguém próximo ou por figurarem em listas de clássicos. Essa expectativa transforma a leitura em tarefa, deslocando o prazer para um segundo plano. Quando o livro não dialoga com o leitor, insistir pode gerar frustração, afastamento e até bloqueio para novas leituras. Reconhecer que a conexão não aconteceu é, muitas vezes, um gesto de honestidade intelectual.

Por que abandonar um livro ainda causa culpa

A culpa associada ao abandono de uma leitura tem raízes culturais profundas. Ler sempre foi visto como sinal de disciplina, inteligência e esforço. Dentro dessa lógica, não terminar um livro equivale a não concluir um dever. Soma-se a isso a cultura da produtividade, que valoriza o “terminar” acima do “experimentar”. No entanto, essa visão ignora um aspecto central: livros não são contratos. O leitor não deve fidelidade à obra, mas a si mesmo e ao tempo que dedica à leitura.

Quando um livro não prende: desistir da leitura é fracasso ou maturidade leitora?

Nem todo livro funciona em todo momento da vida

Outro fator frequentemente ignorado é o contexto do leitor. Um livro pode ser bom, relevante e bem escrito, mas simplesmente não funcionar naquele momento específico. Fadiga emocional, excesso de informação, mudanças de interesse ou até maturidade intelectual influenciam diretamente a recepção de uma obra. Há livros que exigem um estado de espírito particular, um ritmo mais lento ou um repertório que ainda não está formado.

Insistir sempre é sinal de bom leitor?

A ideia de que o “bom leitor” é aquele que termina tudo o que começa não se sustenta na prática. Leitores experientes, críticos literários e profissionais do mercado editorial costumam abandonar livros com frequência. Isso não diminui sua relação com a leitura, pelo contrário. Saber reconhecer quando uma obra não oferece retorno intelectual ou emocional é sinal de repertório, não de fraqueza. A insistência cega pode gerar aversão à leitura e criar uma relação utilitária com os livros, baseada em metas e não em envolvimento.

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