Descoberta intrigante no Sudão pode mudar o que se sabe sobre as Pirâmides do Egito

As pirâmides do Egito sempre despertaram fascínio. São o cartão-postal da antiguidade, símbolo de uma civilização que parecia reservada apenas aos faraós, nobres e deuses. Mas e se os gigantescos túmulos de pedra, construídos com tamanha precisão e esforço, também guardassem histórias de pessoas comuns? Um novo achado arqueológico, no sítio de Tombos, no atual Sudão, pode virar de cabeça para baixo essa ideia que temos tão cristalizada.

A descoberta, publicada no Journal of Anthropological Archaeology, não aconteceu no Egito, mas em um território que, há mais de 3.500 anos, fazia parte do império faraônico. E é justamente isso que dá ainda mais peso à revelação. Em meio a ruínas de tijolos de barro, os arqueólogos encontraram esqueletos que não pertenciam à elite. Pelo contrário, tudo indica que eram de pessoas com rotinas intensamente físicas — trabalhadores, e não nobres.

Quem são os esqueletos encontrados em Tombos, no Sudão?

A pergunta que os arqueólogos tentam responder é justamente essa: quem eram essas pessoas enterradas em estruturas que, teoricamente, deveriam estar reservadas à nobreza? O local da descoberta, Tombos, foi capturado pelos egípcios por volta de 1500 a.C., durante o domínio da dinastia faraônica sobre a Núbia.

Até hoje, os enterros em pirâmides e tumbas elaboradas eram atribuídos exclusivamente a pessoas com alto status — reis, rainhas, sacerdotes ou membros das cortes. Mas os esqueletos de Tombos mostram sinais físicos típicos de trabalhadores braçais: desgaste nos ossos, marcas de esforço repetitivo e fraturas curadas que sugerem uma vida dura, de labuta diária.

Por que essa descoberta pode mudar nossa visão sobre os enterros nas pirâmides?

Porque ela desafia uma crença milenar: a de que apenas os ricos e poderosos eram enterrados em monumentos como pirâmides. Essa ideia vem sendo reforçada por séculos de escavações no Egito, onde a maioria das tumbas mais bem preservadas realmente pertenciam à elite.

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A nova evidência sugere que, pelo menos em Tombos, pessoas comuns — ou, no mínimo, trabalhadores altamente ativos — tiveram acesso a estruturas funerárias similares às dos ricos. Isso não significa que eram enterrados nas grandes pirâmides de Gizé, claro. Mas reforça a possibilidade de que pirâmides menores e tumbas com elementos arquitetônicos sofisticados não eram exclusividade dos nobres.

Onde fica Tombos e qual sua importância histórica?

Tombos está localizado no norte do Sudão, uma região historicamente estratégica para o Antigo Egito. Durante o Novo Império (1550–1070 a.C.), os faraós expandiram seu domínio até a Núbia, e Tombos tornou-se um importante posto administrativo e militar.

Era ali que se controlava o fluxo de mercadorias, ouro e tropas entre o Egito e as regiões ao sul. Isso significa que, embora distante do coração do império, Tombos era um ponto crucial para a manutenção do poder faraônico.

E, claro, como todo centro importante, também abrigava enterros — inclusive de egípcios que viviam na região.

O que revelam os ossos encontrados nas tumbas?

As análises dos ossos feitas pela equipe de arqueólogos mostram que os indivíduos enterrados ali tinham traços musculares acentuados, fraturas cicatrizadas, sinais de artrite degenerativa e deformações típicas de atividades físicas intensas. Não são características que costumamos associar à elite egípcia, que levava uma vida mais sedentária, com alimentação refinada e pouca exposição ao trabalho manual.

Isso levou os cientistas a questionarem: por que pessoas com esse perfil estavam em tumbas tão elaboradas? Seriam trabalhadores com algum prestígio? Servos fiéis? Ou há algo mais nessa história?

E se esses esqueletos forem de servos enterrados com seus senhores?

Essa é uma das hipóteses mais discutidas no estudo. Na crença egípcia, a vida após a morte exigia a presença de servos. Por isso, era comum enterrar com os mortos figuras chamadas ushabtis — pequenas estatuetas que representavam trabalhadores e tinham a função simbólica de servir no além.

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Mas e se, por algum motivo, essas figuras não fossem suficientes, e fosse necessário garantir a presença de servos reais? A teoria é controversa, pois há poucas evidências de que o Egito praticava sacrifícios humanos com essa finalidade. Ainda assim, os pesquisadores sugerem que os corpos possam ter sido de servos enterrados com seus mestres, como um plano B espiritual.

Pode ser que fossem nobres que mantinham um estilo de vida ativo?

Sim, essa também é uma possibilidade levantada por outros especialistas. A ideia é que esses indivíduos, mesmo pertencentes à elite, optavam por manter um estilo de vida fisicamente exigente, talvez por motivos militares ou simbólicos. Afinal, estar em forma poderia representar virilidade, poder ou dedicação ao faraó.

No entanto, essa hipótese enfrenta resistência, porque os padrões físicos da elite egípcia eram bem diferentes. Dietas ricas em gordura, baixa atividade física e condições de saúde típicas da nobreza são facilmente reconhecíveis em múmias e esqueletos. Os corpos de Tombos destoam muito desses padrões.

Como essa descoberta pode afetar os estudos futuros sobre o Egito Antigo?

Ela pode abrir uma nova linha de investigação sobre a mobilidade social, práticas funerárias e o papel dos trabalhadores no Antigo Egito. Se mais evidências forem encontradas em outros sítios arqueológicos, talvez tenhamos que reavaliar o entendimento tradicional sobre quem tinha acesso a túmulos sofisticados — e o que isso realmente significava.

Além disso, o estudo mostra como regiões periféricas do Império Egípcio, como a Núbia, podem revelar práticas distintas ou adaptadas, oferecendo um retrato mais diverso da sociedade egípcia antiga.

O que ainda falta descobrir sobre os enterros egípcios?

Muita coisa. Embora o Egito Antigo seja um dos períodos históricos mais estudados do mundo, novas descobertas continuam surgindo. A arqueologia está constantemente atualizando o que sabemos — ou achamos que sabemos — sobre as crenças, rotinas e até políticas de sepultamento dos egípcios.

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Faltam escavações em muitos locais fora do eixo tradicional do Nilo, além de estudos aprofundados em contextos menos “glamourosos”, como áreas de trabalhadores, servos e comunidades de fronteira, como Tombos.

As pirâmides podem guardar mais do que apenas reis

O que os esqueletos de Tombos nos dizem é que a história do Antigo Egito ainda tem capítulos escondidos sob a areia. Nem tudo era luxo e realeza. Por trás das pedras e dos hieróglifos, havia trabalhadores, comunidades inteiras e talvez, sim, um sistema funerário mais inclusivo do que imaginávamos.

Essa descoberta não apenas desafia a noção elitista que tínhamos sobre os enterros egípcios, como também nos lembra que o passado é feito de múltiplas vozes — e que até os mais silenciosos, um dia, são escutados pela arqueologia.