Cansaço, queda de cabelo, formigamento e “baixa imunidade” podem ter mais a ver com micronutrientes do que com falta de sorte
A cena é comum: a pessoa começa a se sentir mais cansada do que o normal, nota unhas quebradiças, queda de cabelo, pele mais opaca, irritação sem explicação e uma sensação persistente de “corpo pesado”. Em geral, a resposta vem automática: estresse, rotina corrida, falta de sono. E, muitas vezes, é mesmo. Só que nem sempre.
Deficiências de vitaminas e minerais são mais frequentes do que parecem porque os sinais iniciais costumam ser inespecíficos e fáceis de confundir com cansaço cotidiano. O resultado é uma demora para investigar, e o problema vai se acumulando em silêncio.
A boa notícia é que, quando a causa está relacionada a micronutrientes, identificar cedo costuma mudar o jogo. O objetivo aqui é mostrar quais sinais merecem atenção, quais deficiências são mais comuns, quem tem maior risco e como se preparar para investigar sem cair em promessas fáceis.
Por que a deficiência de vitaminas passa despercebida
O corpo avisa, mas avisa “baixinho”
Deficiência de vitaminas raramente começa com um sintoma dramático. Na maioria das vezes, aparece como um conjunto de pequenas queixas: fadiga, dificuldade de concentração, sono ruim, mudanças de humor, palidez, aftas recorrentes, câimbras, baixa tolerância ao exercício.
O problema é que esses sinais também podem ocorrer em várias condições, desde estresse crônico até alterações hormonais, distúrbios do sono e infecções. Por isso, a deficiência vitamínica tende a ser subestimada, principalmente quando a pessoa ainda “dá conta” das tarefas.
Dieta moderna, intestino e absorção: a equação real
Mesmo quem se alimenta “bem” pode ter deficiência. Há três explicações comuns:
- Consumo insuficiente (alimentação restritiva, pouco variada, baixa ingestão de proteínas e vegetais).
- Má absorção (gastrites, uso prolongado de inibidores de acidez, cirurgias bariátricas, doença celíaca, doenças intestinais, alterações da microbiota).
- Maior demanda (gestação, lactação, fases de crescimento, atletas, idosos, processos inflamatórios crônicos).
Um dado que ajuda a dimensionar o problema
A deficiência de vitamina D, por exemplo, é considerada um desafio global. Um estudo que analisou dados de 2000 a 2022 estimou prevalência global de 15,7% para níveis muito baixos de 25(OH)D (<30 nmol/L). No Brasil, um estudo com adultos saudáveis encontrou prevalência padronizada de deficiência de 15,3% e insuficiência de 50,9%, variando por cidade.
Isso não significa que todo mundo precise suplementar por conta própria, mas mostra por que o tema aparece com tanta frequência nos consultórios.
Sinais comuns que merecem investigação (e quais nutrientes podem estar por trás)
Cansaço persistente e falta de fôlego: ferro, B12 e folato entram no radar
A fadiga é o sintoma mais “genérico” e, ao mesmo tempo, um dos mais relevantes. Quando vem acompanhada de palidez, tontura, dor de cabeça e falta de ar aos esforços, anemia é uma hipótese que precisa ser considerada. A anemia pode ter várias causas, e deficiência de ferro é uma das mais comuns.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a anemia permanece muito prevalente no mundo: em 2023, 30,7% das mulheres de 15 a 49 anos estavam com anemia; entre gestantes, 35,5%.
Gráfico rápido (panorama global – OMS)
O que observar no dia a dia:
- cansaço que não melhora com descanso
- queda de desempenho físico
- palidez, tonturas, falta de ar em subidas
- taquicardia aos esforços
Formigamento, dormência e lapsos de memória: atenção para vitamina B12
A deficiência de B12 pode se manifestar com sintomas neurológicos: formigamento em mãos e pés, perda de sensibilidade, sensação de choque, desequilíbrio, além de alterações de humor e queixas cognitivas. É especialmente importante em idosos, pois a absorção pode diminuir com a idade e com o uso de certos medicamentos.
Revisões apontam que a deficiência de B12 é relevante em pessoas mais velhas e pode se associar a sinais neurológicos e cognitivos.
Grupos com maior risco:
- pessoas acima de 50–60 anos
- vegetarianos/veganos sem estratégia de reposição
- usuários de metformina ou inibidores de bomba de prótons por tempo prolongado (quando indicado pelo médico)
- quem tem gastrite atrófica, cirurgia bariátrica ou doenças intestinais
Queda de cabelo e unhas fracas: nem sempre é “só estresse”
Queda capilar e unhas quebradiças são frequentemente atribuídas ao emocional. O estresse pode influenciar, mas vale investigar ferro (ferritina), zinco, biotina em casos selecionados, além de vitamina D e função tireoidiana. O ponto central é: não existe um único nutriente “culpado”, e o exame isolado raramente responde tudo.
Sinais associados:
- queda intensa ao lavar ou pentear por semanas
- afinamento progressivo
- unhas descamando, quebrando com facilidade
- pele ressecada e mais sensível
Imunidade “baixa” e infecções recorrentes: o que dá para afirmar com segurança
Muita gente relaciona qualquer gripe repetida à “falta de vitamina”. É um raciocínio popular, mas impreciso. A imunidade depende de sono, estresse, alimentação, vacinação, exposição a vírus, condição metabólica e, sim, micronutrientes. Vitamina D costuma entrar nessa conversa por ser amplamente estudada e porque a insuficiência aparece com frequência em levantamentos populacionais.
A interpretação correta é: deficiência pode ser um fator a mais, não necessariamente a única explicação.
Como se proteger: rotina, alimentação e investigação sem “moda” e sem chute
1) Ajuste de base: comida de verdade resolve mais do que polivitamínico aleatório
Uma estratégia prática para reduzir o risco de deficiências é garantir regularidade e variedade ao longo da semana:
H2 Proteínas e B12
B12 está majoritariamente em alimentos de origem animal. Quem não consome precisa de plano nutricional e, muitas vezes, suplementação orientada.
H2 Ferro e folato
Ferro aparece em carnes, vísceras, leguminosas; folato em verduras verde-escuras. Combinar fontes vegetais de ferro com vitamina C (laranja, limão, acerola) pode favorecer absorção.
H2 Vitamina D: sol, contexto e exame
Exposição solar segura varia conforme pele, latitude e rotina. Por isso, dosagem e conduta devem ser individualizadas, principalmente para idosos, pessoas com pouca exposição ao sol e grupos de risco.
2) O passo a passo para investigar sem exagero
Quando os sintomas persistem por semanas, o caminho mais seguro é procurar avaliação médica e nutricional. Em geral, a investigação inclui histórico, exame físico e, se indicado, exames laboratoriais.
Exames que costumam entrar na conversa (conforme avaliação):
- hemograma completo
- ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina (quando indicado)
- vitamina B12 e, em alguns casos, marcadores funcionais
- 25(OH)D para vitamina D
- folato
- função tireoidiana, glicemia, perfil metabólico (dependendo do quadro)
A regra de ouro: suplemento é ferramenta terapêutica, não atalho universal. Doses altas sem necessidade podem mascarar diagnósticos, gerar efeitos adversos e dar falsa sensação de segurança.
3) Tendências quentes: por que o tema explodiu
Nos últimos anos, três movimentos aumentaram o interesse por deficiência vitamínica:
- maior adoção de dietas restritivas ou “moda do corte” (sem acompanhamento)
- rotina mais indoor e menos exposição solar, associada à discussão sobre vitamina D
- envelhecimento populacional e foco em prevenção de perda funcional, com atenção especial à B12 e anemia
Perguntas Frequentes
1) Quais são os sinais mais comuns de deficiência de vitaminas?
Cansaço persistente, palidez, formigamento, queda de cabelo, unhas fracas, aftas, câimbras e dificuldade de concentração são queixas frequentes, mas inespecíficas.
2) É seguro tomar polivitamínico por conta própria?
Nem sempre. Pode não resolver o problema real e, em alguns casos, atrapalhar a investigação. O ideal é avaliar sintomas e exames com um profissional.
3) Vitamina D baixa sempre precisa de suplemento?
Não necessariamente. A decisão depende do nível no exame, sintomas, exposição solar, idade e riscos individuais.
4) Queda de cabelo significa falta de vitamina?
Pode ter relação, mas também pode ser hormonal, genética, por estresse ou por doenças do couro cabeludo. O mais indicado é investigar causas e não “adivinhar” suplemento.
5) Quem tem mais risco de deficiência de B12?
Idosos, veganos sem reposição, pessoas com gastrite atrófica, pós-bariátrica e alguns usuários de medicamentos que afetam absorção, conforme avaliação médica.
6) Anemia é sempre falta de ferro?
Não. Deficiência de ferro é comum, mas anemia pode ocorrer por outras causas (inflamação, deficiência de B12/folato, doenças crônicas). A OMS mostra alta prevalência global em mulheres e gestantes, reforçando a importância de diagnóstico correto.
7) Quais exames costumam ser pedidos?
Hemograma, ferritina e estudos de ferro, vitamina B12, vitamina D (25(OH)D) e folato são comuns, mas a escolha depende do quadro clínico.
Conclusão
Alimentação consistente, rotina de sono, atividade física e acompanhamento profissional são as bases. Para mais temas de saúde com linguagem clara e foco em prevenção, acompanhe as publicações do Jornal da Fronteira.
Deficiência de vitaminas nem sempre aparece com um alerta claro. Muitas vezes, começa com sinais discretos que se misturam à vida corrida: cansaço, queda de cabelo, sono ruim, formigamento, irritabilidade. A diferença entre “normal” e “um corpo pedindo socorro” costuma estar na persistência dos sintomas e na avaliação adequada.

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