O Organização Mundial da Saúde anunciou que o Chile passou a integrar o grupo de países que eliminaram a hanseníase como problema de saúde pública, tornando-se o primeiro das Américas a alcançar esse reconhecimento. A certificação foi concedida após análise técnica realizada em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde, que confirmou a inexistência de transmissão local da doença no território chileno há mais de 30 anos.
Com a decisão, o país sul-americano torna-se o segundo no mundo a receber esse status, depois da Jordânia. A avaliação envolveu a revisão de dados epidemiológicos, sistemas de notificação compulsória, protocolos de diagnóstico e estratégias de acompanhamento adotadas ao longo das últimas décadas.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a experiência chilena demonstra que a eliminação de doenças historicamente associadas à pobreza é possível quando há políticas públicas contínuas, diagnóstico precoce e acesso universal ao tratamento.
A hanseníase, também conhecida como doença de Hansen ou lepra, é causada pela bactéria Mycobacterium leprae e atinge principalmente a pele e os nervos periféricos. Sem tratamento adequado, pode provocar sequelas permanentes, como perda de sensibilidade, deformidades e incapacidade física.

No Chile, o último caso autóctone — contraído dentro do próprio país — foi identificado em 1993. Desde então, os registros confirmados referem-se apenas a casos importados, sem cadeia de transmissão interna. Entre 2012 e 2023, foram notificados 47 casos, todos associados a infecções adquiridas fora do território chileno.
Mesmo diante da ausência prolongada de transmissão, a doença permaneceu sob vigilância. O sistema de saúde manteve a notificação obrigatória, treinamento de profissionais e monitoramento epidemiológico contínuo. A rede de atenção primária atua como porta de entrada para suspeitas clínicas, com encaminhamento para especialistas e acompanhamento até a alta.
A ministra da Saúde do Chile, Ximena Aguilera, declarou que o reconhecimento internacional reflete décadas de políticas estruturadas em prevenção, diagnóstico e tratamento, e afirmou que o país continuará monitorando possíveis casos importados para evitar a reintrodução da doença.
Embora seja curável com tratamento antibiótico oferecido gratuitamente em diversos países, a hanseníase ainda é considerada uma doença tropical negligenciada e permanece ativa em mais de 120 nações. Estima-se que mais de 200 mil novos casos sejam registrados anualmente no mundo.
No Brasil, a situação segue preocupante. O país ocupa a segunda posição global em número de novos diagnósticos, atrás apenas da Índia. Em 2025, foram contabilizados 20.632 novos casos, segundo dados do Ministério da Saúde. A maior incidência ocorre em regiões marcadas por vulnerabilidade socioeconômica e dificuldades de acesso aos serviços de saúde, fatores que favorecem o diagnóstico tardio e a continuidade da transmissão.
Especialistas alertam que a fase pós-eliminação exige manutenção rigorosa dos sistemas de vigilância, notificação rápida e capacidade clínica de diagnóstico. A certificação internacional representa um avanço histórico para o Chile, mas a erradicação global da hanseníase ainda depende de esforços contínuos em países onde a doença permanece endêmica.



