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Canetas emagrecedoras falsificadas acendem alerta: médicos apontam riscos graves à saúde e danos a órgãos vitais

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O crescimento da procura por medicamentos injetáveis para emagrecimento tem provocado um efeito colateral preocupante: a circulação de versões falsificadas desses produtos no mercado clandestino. Médicos e entidades de saúde alertam que o uso de canetas emagrecedoras irregulares pode trazer consequências graves ao organismo, incluindo danos a órgãos vitais como fígado, rins e coração, além de riscos de infecções e até morte.

Polícia Federal deflagrou uma operação para desarticular uma rede clandestina envolvida na produção, fracionamento e comercialização ilegal de canetas emagrecedoras que utilizariam, de forma irregular, o princípio ativo tirzepatida. A substância é a base do Mounjaro, medicamento injetável indicado para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, cujo uso no Brasil é rigidamente controlado.

Segundo especialistas, o principal perigo está no fato de que não há qualquer garantia sobre a composição desses produtos falsificados. Não se sabe se a substância presente é realmente a tirzepatida, se está na dosagem correta ou se foi preparada seguindo padrões mínimos de segurança. Além disso, por se tratar de medicamentos injetáveis, a ausência de esterilidade adequada pode levar à contaminação por bactérias, vírus ou fungos.

No Brasil, apenas empresas farmacêuticas autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estão habilitadas a fabricar e comercializar medicamentos agonistas do GLP-1, como a tirzepatida. A venda deve ocorrer exclusivamente em farmácias e drogarias regularizadas, com retenção de receita médica. A manipulação desse tipo de medicamento não é permitida, uma vez que a farmacêutica Eli Lilly detém a patente do Mounjaro.

Em nota oficial, a Eli Lilly reforçou que não fornece tirzepatida para farmácias de manipulação, clínicas médicas, centros de bem-estar, plataformas online ou qualquer outro fabricante. A empresa ressalta que versões manipuladas da substância não passaram por avaliação de segurança, eficácia e qualidade pela Anvisa, o que representa riscos potencialmente graves aos pacientes.

O diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Fabio Moura, explica que não existe garantia de que os medicamentos vendidos de forma irregular contenham a substância correta ou que estejam livres de contaminação. Segundo ele, a produção de medicamentos injetáveis exige técnicas rigorosas, ambientes controlados e protocolos específicos para evitar riscos sanitários.

“Quando essas normas não são respeitadas, o frasco pode conter vírus, bactérias ou fungos, que acabam sendo injetados diretamente no organismo”, afirma Moura. Ele acrescenta que os efeitos de medicamentos falsificados são imprevisíveis e que há risco concreto de lesões em órgãos vitais. “Na prática, qualquer substância inadequada pode sobrecarregar fígado, rins e coração, que são órgãos responsáveis por metabolizar e filtrar essas drogas”, explica.

Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), reforça que as consequências do uso de medicamentos falsificados podem variar de quadros leves a situações extremas, incluindo óbitos. Ele compara o cenário ao de episódios recentes envolvendo bebidas alcoólicas adulteradas com metanol, que resultaram em intoxicações graves e mortes.

“Vivemos isso recentemente com bebidas falsificadas que não passaram por controle de qualidade. Agora imagine um medicamento, ainda mais um peptídeo complexo como a tirzepatida, sendo produzido sem qualquer critério técnico”, alerta Hohl.

Além dos riscos diretos à saúde, há também a possibilidade de o medicamento simplesmente não produzir o efeito esperado. No caso de pacientes com diabetes, isso pode significar perda do controle glicêmico. “A glicemia pode voltar a subir, não haver perda de peso ou, em alguns casos, ocorrer o efeito oposto ao desejado”, explica Fabio Moura.

Outro ponto crítico é o risco associado às seringas utilizadas nesses produtos ilegais. A farmacêutica Laura Marise, em vídeo divulgado nas redes sociais, ressalta que medicamentos injetáveis precisam ser completamente estéreis. Segundo ela, nem todas as farmácias de manipulação ou clínicas possuem estrutura adequada para fabricar esse tipo de produto com segurança.

As imagens divulgadas pela Polícia Federal durante a operação revelam ambientes de fabricação em condições sanitárias inadequadas, além de substâncias armazenadas a granel, sem identificação e sem embalagem apropriada, o que reforça os alertas feitos por especialistas.

Médicos orientam que alguns sinais podem indicar o uso de um produto irregular e exigem atenção imediata. Dor intensa ou inflamação acentuada no local da aplicação, febre, calafrios ou qualquer reação fora do padrão esperado são motivos para suspender o uso e procurar um endocrinologista. Além disso, a origem do medicamento deve sempre ser questionada.

“Estamos falando de um medicamento sob patente, cuja fórmula é protegida por segredo industrial. Se alguém afirma reproduzir esse produto fora da indústria farmacêutica, isso por si só já é um sinal de alerta”, destaca Moura.

Os especialistas também reforçam que médicos não podem vender medicamentos diretamente aos pacientes. Essa prática configura crime e infração grave ao Código de Ética Médica. “Se um médico estiver comercializando o produto, o paciente deve desconfiar imediatamente”, conclui o endocrinologista.

Diante do avanço do mercado ilegal, profissionais de saúde reforçam que a única forma segura de utilizar medicamentos para emagrecimento é por meio de prescrição médica, aquisição em estabelecimentos regularizados e acompanhamento especializado contínuo.

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