Com a elevação das temperaturas no verão, muitas pessoas passam a perceber um incômodo mais intenso nas pernas. Sensação de peso ao fim do dia, tornozelos inchados, dor persistente e veias mais aparentes se tornam queixas comuns, especialmente entre mulheres. Esse desconforto, longe de ser apenas uma impressão subjetiva, tem explicação médica: o calor realmente agrava os sintomas das varizes.
As varizes estão associadas à insuficiência venosa crônica, condição em que o sangue encontra dificuldade para retornar das pernas ao coração. Nesse cenário, qualquer fator que interfira na dinâmica dos vasos sanguíneos pode intensificar o problema. E é exatamente isso que ocorre nos dias mais quentes.
De acordo com o médico da família e comunidade Dr. Raul Queiroz, da UBS Jardim Valquíria, unidade gerenciada pelo CEJAM em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, o processo começa quando as válvulas das veias deixam de funcionar de maneira adequada. Essas estruturas têm a função de impedir que o sangue volte para baixo. Quando falham, ocorre o acúmulo de sangue nos membros inferiores, elevando a pressão dentro das veias e provocando a dilatação progressiva, que resulta em dor, inchaço, sensação de peso e alterações na pele.
No verão, o corpo ativa mecanismos naturais para tentar regular a própria temperatura. Um dos principais é a vasodilatação, fenômeno em que os vasos sanguíneos se expandem para facilitar a dissipação do calor. Embora seja essencial para o equilíbrio térmico, esse processo reduz ainda mais a eficiência das válvulas venosas já comprometidas. O resultado é um aumento do refluxo sanguíneo nas pernas, intensificando os sintomas das varizes.
Além disso, as temperaturas elevadas favorecem a retenção de líquidos. O calor provoca maior extravasamento de líquidos dos vasos para os tecidos, contribuindo para o edema, especialmente na região dos tornozelos e pés. Essa combinação de fatores explica por que, ao final de um dia quente, as pernas parecem mais cansadas, inchadas e doloridas.
Em quadros mais avançados, a circulação prejudicada pode desencadear alterações na pele, como escurecimento, ressecamento, coceira intensa e até o surgimento de feridas de difícil cicatrização. A baixa oxigenação dos tecidos favorece processos inflamatórios locais, tornando a pele mais frágil e suscetível a complicações, como úlceras venosas.
Alguns grupos tendem a sentir os efeitos do calor com mais intensidade. Pessoas com histórico familiar de varizes, gestantes, idosos, indivíduos com obesidade e aqueles que passam muitas horas em pé ou sentados estão entre os mais afetados. Durante a gestação, por exemplo, há aumento do volume sanguíneo, alterações hormonais que promovem a dilatação das veias e compressão de vasos pelo útero, dificultando o retorno do sangue. Já na obesidade, fatores como maior pressão intra-abdominal, inflamação crônica e menor mobilidade comprometem ainda mais a circulação nas pernas.
Para reduzir o desconforto, algumas medidas simples no dia a dia podem fazer diferença significativa. Elevar as pernas ao nível do coração sempre que possível ajuda a facilitar o retorno venoso. Evitar roupas muito apertadas, que dificultam a circulação, e não permanecer longos períodos na mesma posição também são recomendações importantes. Duchas frias nas pernas ao longo do dia podem aliviar a sensação de peso e contribuir para a contração dos vasos.
A hidratação adequada é outra aliada. Embora não trate diretamente as varizes, beber água regularmente reduz a viscosidade do sangue, melhora a microcirculação e diminui a retenção compensatória de líquidos, auxiliando no controle do inchaço.
O uso de meias de compressão continua sendo uma das estratégias mais eficazes para evitar a progressão da insuficiência venosa. No entanto, é fundamental que sejam indicadas por um profissional de saúde, pois o grau de compressão e o tamanho devem ser ajustados às características de cada paciente. Durante o verão, a preferência deve ser por modelos mais leves e respiráveis, que aumentam o conforto e favorecem a adesão ao uso.
A prática de atividades físicas regulares também é recomendada. Exercícios como caminhada, ciclismo, natação, hidroginástica e fortalecimento da panturrilha estimulam a chamada “bomba muscular da panturrilha”, mecanismo que impulsiona o sangue de volta ao coração. O cuidado maior deve ser evitar a prática ao ar livre nos horários de maior calor e por períodos prolongados.
Alguns sinais exigem atenção imediata e avaliação médica, pois podem indicar complicações mais graves, como tromboflebite ou trombose venosa profunda. Dor súbita e intensa em uma das pernas, inchaço assimétrico, vermelhidão, endurecimento ao longo da veia, falta de ar associada ou feridas que não cicatrizam são sinais de alerta. Embora o calor, isoladamente, não cause trombose, ele pode agravar a estase venosa, principalmente quando associado a longos períodos de imobilidade, viagens prolongadas e uso de hormônios.
Além das mudanças de hábitos, a medicina dispõe atualmente de tratamentos modernos e minimamente invasivos para as varizes, como escleroterapia com espuma, laser endovenoso e radiofrequência. Esses procedimentos apresentam recuperação rápida e devem ser avaliados individualmente, sempre com acompanhamento de um angiologista.
A observação atenta aos sinais do corpo é fundamental tanto para quem já convive com as varizes quanto para quem deseja prevenir o problema. Informação e orientação médica são as melhores ferramentas para evitar que a condição evolua para quadros mais graves, especialmente durante os períodos de calor intenso.

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