Novo estudo redefine a idade do caixão da chamada “Princesa de Bagicz”

Novo estudo redefine a idade do caixão da chamada “Princesa de Bagicz”

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A história do enigmático sepultamento conhecido como “Princesa de Bagicz” ganhou um novo capítulo após a publicação de um estudo científico que revisa a idade do caixão onde a jovem foi enterrada. O achado, revelado no fim do século XIX após o desmoronamento de uma falésia costeira no noroeste da Polônia, voltou ao centro do debate arqueológico graças ao uso de técnicas modernas de datação. A combinação entre análises de anéis de árvores, estudos isotópicos e exames anteriores permitiu esclarecer uma discrepância que intrigava pesquisadores havia décadas.

O sepultamento veio à luz em 1898, quando a erosão marinha fez ruir parte de um penhasco próximo à localidade de Bagicz, na região da Pomerânia. Entre os sedimentos, surgiu um caixão escavado em troncos de carvalho, contendo o esqueleto de uma jovem. A preservação da madeira foi considerada extraordinária, já que os solos arenosos da região raramente conservam estruturas orgânicas desse tipo.

Um enterro associado à cultura Wielbark

Arqueólogos relacionaram o sepultamento à chamada Cultura Wielbark, grupo ativo entre os séculos I e IV d.C. na região do atual território polonês. Essa cultura é conhecida por práticas funerárias que incluíam o uso de caixões ou estruturas de madeira revestidas por galhos. O exemplar encontrado em Bagicz destaca-se por ser o único do gênero bem preservado na Pomerânia.

A jovem foi enterrada com adornos que indicam certo prestígio social. Entre os objetos estavam uma fíbula de bronze, um alfinete, duas pulseiras metálicas e um colar composto por contas de vidro e âmbar. Registros históricos mencionam ainda a presença de um pequeno banco de madeira e de uma pele de animal, itens que não resistiram à ação do tempo. O conjunto levou estudiosos, no passado, a apelidarem a mulher de “princesa”, embora escavações posteriores tenham revelado a existência de um cemitério maior nas proximidades, relativizando a hipótese de um enterro isolado de elite.

Determinar a idade exata do sepultamento tornou-se um dos principais impasses científicos relacionados ao caso. Na década de 1980, análises tipológicas dos objetos sugeriram que o enterro teria ocorrido entre 110 e 160 d.C., período compatível com a fase romana da Idade do Ferro na região.

No entanto, em 2018, exames de radiocarbono realizados em um dos dentes da jovem apontaram uma data significativamente mais antiga, entre 113 a.C. e 65 d.C. A diferença de quase um século levantou questionamentos sobre a confiabilidade das metodologias empregadas e reacendeu o debate acadêmico sobre o contexto histórico do sepultamento.

Dendrocronologia esclarece a idade do caixão

A solução começou a ganhar forma com a publicação de um novo estudo na revista científica Archaeometry. A equipe recorreu à dendrocronologia, técnica que examina os anéis de crescimento das árvores para determinar o momento exato em que foram cortadas. Ao comparar o padrão do carvalho utilizado no caixão com cronologias já estabelecidas na Europa Central, os pesquisadores concluíram que a árvore foi derrubada por volta de 120 d.C., com margem de erro estimada em sete a oito anos.

O resultado coincide com as estimativas arqueológicas iniciais baseadas nos artefatos encontrados no túmulo. A nova datação reforça a ideia de que o sepultamento pertence ao início do século II d.C., alinhando-se ao período de atuação da Cultura Wielbark.

O “efeito reservatório” e a dieta da jovem

Para entender por que o radiocarbono indicou uma idade mais antiga, os cientistas analisaram isótopos estáveis presentes nos ossos da mulher. Os dados revelaram uma dieta rica em proteína animal, especialmente peixes de água doce. Esse detalhe é fundamental para compreender o chamado “efeito reservatório”.

Peixes que vivem em rios e lagos com presença de rochas calcárias podem absorver carbono geológico antigo dissolvido na água. Quando esse carbono é incorporado ao organismo humano por meio da alimentação, os testes de radiocarbono tendem a superestimar a idade dos restos mortais. A água moderadamente dura da região da Pomerânia pode ter intensificado esse fenômeno, afetando toda a cadeia alimentar local.

Os pesquisadores também realizaram análises de isótopos de estrôncio para investigar a possível origem da jovem. Os valores obtidos apresentam semelhanças com registros de áreas da Escandinávia, como a ilha de Öland. Contudo, depósitos glaciais presentes na própria Pomerânia produzem assinaturas químicas semelhantes, o que impede uma conclusão definitiva apenas com esse método.

Dessa forma, permanece em aberto a questão sobre se a mulher era local ou migrante. Ainda assim, o conjunto de evidências aponta para uma sociedade conectada por redes culturais e possivelmente comerciais mais amplas do que se imaginava para a região naquele período.

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