Governo boliviano autoriza atuação ampliada das forças de segurança para liberar estradas e restabelecer o abastecimento após semanas de protestos
O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, decretou estado de emergência nacional no sábado, 20 de junho, após cerca de 50 dias de protestos e bloqueios em rodovias de diferentes regiões do país. A medida, com duração prevista de 90 dias, amplia os instrumentos legais disponíveis ao governo para liberar as estradas e restabelecer a circulação de alimentos, combustíveis, medicamentos e outros produtos essenciais.
O decreto permite a participação das Forças Armadas em apoio à polícia nas operações destinadas à retirada dos bloqueios. Segundo o governo, a intervenção tem como objetivo recuperar o funcionamento dos serviços e reduzir os efeitos econômicos, sociais e humanitários provocados pela interrupção das principais ligações rodoviárias.
Em pronunciamento transmitido pelos meios de comunicação estatais, Paz afirmou que a população não poderia continuar impedida de trabalhar, estudar, receber atendimento médico e manter o sustento de suas famílias. O presidente declarou que a decisão foi tomada após o esgotamento das tentativas de negociação com os grupos mobilizados.
Paz também sustentou que a medida não tinha como finalidade interromper a normalidade institucional, mas restabelecer a circulação de pessoas e mercadorias. O governo afirmou que as ações seriam direcionadas aos pontos de bloqueio e que os direitos previstos na Constituição permaneceriam preservados.
Os protestos começaram no início de maio e reuniram sindicatos, trabalhadores, mineiros, transportadores, organizações indígenas, grupos rurais e setores ligados ao ex-presidente Evo Morales. As manifestações foram desencadeadas pelas medidas econômicas adotadas pelo novo governo, entre elas a redução dos subsídios aos combustíveis.
A retirada dos subsídios, mantidos havia cerca de duas décadas, provocou aumento nos preços da gasolina e do diesel, além de impactos sobre o transporte e o custo de produtos básicos. As mobilizações ampliaram suas reivindicações ao longo das semanas e passaram a incluir aumentos salariais, revisão das medidas de austeridade, liberação de manifestantes detidos e, em alguns casos, a renúncia do presidente.
As interrupções nas rodovias afetaram principalmente o abastecimento de La Paz, El Alto e outras cidades bolivianas. Caminhões ficaram retidos durante vários dias, enquanto estabelecimentos comerciais, hospitais e transportadores relataram dificuldades para obter combustíveis, alimentos e materiais médicos.
Até o momento do anúncio do decreto, pelo menos 14 pessoas haviam morrido durante a crise, segundo dados divulgados por organismos bolivianos e pela imprensa internacional. Também foram registrados feridos, prisões e confrontos entre manifestantes e forças de segurança em diferentes pontos do país.
A declaração do estado de emergência ocorreu poucas horas depois de o governo anunciar um acordo com a Central Operária Boliviana (COB), principal organização sindical do país. O entendimento previa a suspensão de parte das mobilizações e a criação de mecanismos de negociação sobre reivindicações trabalhistas e econômicas.
O acordo, entretanto, não encerrou a crise. Organizações indígenas, camponesas e grupos vinculados ao movimento político de Evo Morales não participaram das negociações ou rejeitaram os termos apresentados. Parte dessas entidades manteve os bloqueios, especialmente em áreas rurais e na região de Cochabamba.
O governo responsabiliza aliados do ex-presidente pela continuidade das manifestações e afirma que setores dos protestos buscam desestabilizar as instituições. Evo Morales nega organizar os atos e sustenta que as mobilizações são consequência da deterioração econômica e da insatisfação com as decisões do governo.
A legislação boliviana estabelece que a declaração de estado de emergência entra em vigor imediatamente, mas deve ser comunicada ao Legislativo em até 24 horas. A Assembleia Legislativa Plurinacional tem prazo de até 72 horas para aprovar ou rejeitar a medida.
O Congresso aprovou o decreto no domingo, 21 de junho. No mesmo dia, o governo informou que o número de bloqueios ativos havia diminuído para 28, após acordos firmados com algumas organizações e a liberação de trechos considerados estratégicos.
Apesar da redução, manifestações continuaram em algumas regiões, e as principais reivindicações econômicas permaneceram sem solução definitiva. O governo também iniciou ações para proteger instalações públicas, rotas de abastecimento e áreas consideradas essenciais para a prestação de serviços.
Rodrigo Paz assumiu a Presidência em 8 de novembro de 2025, após vencer o segundo turno das eleições com aproximadamente 54,5% dos votos. A vitória encerrou quase duas décadas de domínio político do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia durante a maior parte do período sob a liderança de Evo Morales e de seus sucessores.
A crise representa o principal desafio enfrentado por Paz desde o início do mandato. O presidente assumiu o governo em meio à escassez de dólares, inflação elevada, falta de combustíveis e dificuldades nas contas públicas, quadro que levou à adoção de medidas de contenção de gastos e revisão de subsídios.
Com o estado de emergência em vigor, o governo pretende liberar as rodovias e normalizar o abastecimento. A situação política, no entanto, permanece instável, com protestos ainda ativos e divergências entre o Executivo, sindicatos, movimentos sociais e organizações indígenas sobre as medidas econômicas adotadas.
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Lara Gabriely escreve sobre assuntos locais, mas também sobre assuntos relacionados à política dos estados do Paraná e Santa Catarina, além de outros fatos interesse regional.
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