No dia 2 de abril, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, uma data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007
Seu objetivo é aumentar a compreensão sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de destacar os direitos e necessidades das pessoas autistas.
Embora a legislação assegure o direito à educação em instituições de ensino regulares, a simples matrícula não garante um ambiente acolhedor e eficaz, livre de preconceitos. É essencial que o olhar sobre o estudante autista seja cuidadoso, sem distinções que reforcem estigmas.
De acordo com Carla K. Vasques, professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), existem estratégias cruciais que as escolas devem adotar para atender alunos com TEA, especialmente durante a adolescência, uma fase marcada por grupos sociais muitas vezes excludentes.
Valorizando momentos de encontro
Um dos principais desafios que educadores enfrentam no ensino médio é a inclusão de jovens com TEA em grupos que tendem a ser fechados.
Carla sugere que, em vez de tentar inserir o estudante autista em círculos sociais já estabelecidos, é mais benéfico criar oportunidades de encontros que celebrem as diferenças.
“Deve-se abandonar a ideia de inclusão como um simples encaixe e investir na colaboração, proporcionando momentos onde os alunos possam interagir com base em seus próprios interesses e formas de se relacionar”, explica a docente, que também coordena o Eixo I – Psicanálise e Educação Inclusiva do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC) da UFRGS.
Ela ressalta que a “inclusão forçada” muitas vezes ignora a verdadeira questão: a necessidade de transformar as estruturas sociais e educacionais que podem marginalizar a presença do autista.
Quando a aceitação é imposta sem um trabalho coletivo de escuta, corre-se o risco de que o aluno autista se torne uma figura marginal, sem laços significativos, enquanto o grupo é pressionado a simular uma aceitação que pode não ser genuína.
Carla observa que a escola deve ser um espaço onde se aprende a conviver com a diferença, não como um problema a ser resolvido, mas como uma diversidade a ser integrada.
“Isso requer um compromisso ético dos educadores e das políticas públicas: transformar a inclusão em um processo colaborativo, lento e aberto ao inesperado”, enfatiza.
Reconhecendo que a comunicação vai além do verbal
A linguagem adolescente, frequentemente repleta de gírias e humor interno, pode ser um desafio para jovens autistas, não por uma falta de entendimento, mas devido a uma relação distinta com a comunicação. Carla K. Vasques destaca que é importante reconhecer que nem toda comunicação é verbal, e muitas vezes, o silêncio carrega significados profundos.
“Um aluno autista pode expressar-se através do corpo, do olhar ou de objetos que carrega. Para que possamos ouvir essas expressões, é necessário abrir espaço para diferentes interpretações”, observa.
A função da escola, portanto, não é ensinar o estudante autista a se conformar com um padrão de comunicação, mas sim ampliar o repertório coletivo para incluir diversas formas de expressão.
É válido traduzir gírias e piadas quando necessário, mas também é fundamental que educadores permitam que os alunos autistas compartilhem seus próprios códigos e interesses.
“A literalidade, frequentemente considerada uma limitação, pode, na verdade, ser uma maneira ética de interagir com a linguagem e uma demanda por clareza em um mundo repleto de ambiguidades”, conclui a pesquisadora.
A importância da colaboração
Para que a escola se torne um ambiente de escuta e inovação coletiva, é imprescindível que não opere de forma isolada.
“Trabalhar com estudantes autistas requer a formação de uma rede que inclua as famílias, profissionais de suporte e, acima de tudo, os próprios alunos, reconhecendo-os como protagonistas de sua experiência”, afirma Carla.
Ela enfatiza que os pais não devem ser meros informantes sobre o comportamento de seus filhos, mas sim parceiros na criação de estratégias educacionais. Da mesma forma, os profissionais de áreas afins não devem se limitar a dar suporte técnico, mas devem ser colaboradores que ajudam a afinar a percepção da escola em relação a gestos, modos de comunicação e interesses dos alunos.
“Esse trabalho em conjunto só faz sentido se a escola também tiver algo a oferecer, construindo laços significativos”, finaliza.
O Dia Mundial de Conscientização do Autismo nos convida a refletir sobre como podemos, coletivamente, promover um ambiente educacional mais inclusivo e compreensivo para todos os alunos.
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