Arqueólogos que atuam em escavações no centro histórico de Tønsberg, na Noruega, localizaram um anel de ouro medieval em excelente estado de conservação.
A descoberta foi feita pela arqueóloga Linda Åsheim durante trabalhos realizados a pedido da Prefeitura de Tønsberg, no cruzamento das ruas Storgaten e Prestegaten, área situada dentro da zona de patrimônio cultural automaticamente protegida da Cidade Medieval de Tønsberg.
O artefato foi encontrado a apenas sete centímetros de profundidade, em uma camada de cultivo, o que surpreendeu a equipe responsável pela escavação.
De acordo com o Instituto Norueguês de Pesquisa do Patrimônio Cultural (NIKU), o anel está entre as descobertas de joias medievais mais significativas do país nos últimos anos. Dados do banco nacional de artefatos Unimus indicam que existem apenas 220 anéis de ouro catalogados na Noruega, dos quais somente 63 são atribuídos à Idade Média.
Em Tønsberg, a última descoberta comparável de um anel de ouro havia ocorrido há cerca de 15 anos, o que reforça a relevância do achado para os estudos sobre o período medieval na região.
O anel apresenta elevado nível de refinamento técnico. A peça é decorada com trabalhos detalhados de filigrana, técnica que envolve a torção, dobra e soldagem de fios extremamente finos de ouro, formando padrões espirais complexos.
Esses elementos são complementados por pequenas contas circulares produzidas por granulação, método no qual minúsculas esferas de ouro são fixadas à superfície do objeto. No centro da peça há uma pedra oval de tonalidade azul profunda, cuidadosamente cravada.
Segundo a professora Marianne Vedeler, do Museu de História Cultural da Universidade de Oslo, os motivos em espiral observados no anel são característicos de joias produzidas entre os séculos IX e XI. Embora existam alguns exemplares com características semelhantes encontrados em outras regiões da Noruega, como um anel de Ullensaker, em Akershus, não há paralelos diretos que reúnam, ao mesmo tempo, filigrana elaborada, granulação e pedra engastada com esse nível de conservação.
Peças com decoração espiralada também foram identificadas na Inglaterra entre os séculos IX e início do X, embora, na maioria dos casos, sem a presença de pedras.
As técnicas de filigrana e granulação chegaram à Noruega no início da Idade Média, influenciadas por tradições do Império Bizantino e da ourivesaria carolíngia. O período carolíngio, que se estendeu aproximadamente de 750 a 900 depois de Cristo, sob o domínio de Carlos Magno, teve papel central na difusão desses métodos sofisticados de trabalho em metal pela Europa.
Embora a pedra azul do anel encontrado em Tønsberg seja provavelmente feita de vidro colorido, e não de safira natural, sua cor teria carregado forte significado simbólico na Europa medieval.
Pesquisas indicam que pedras azuis eram associadas ao poder divino e a propriedades protetoras, sendo consideradas capazes de influenciar a saúde e o destino de quem as utilizava. Estudos publicados por Vedeler e Røstad em 2015 apontam que esse tipo de pedra era ligado a crenças relacionadas à cura, à preservação da castidade e ao equilíbrio do corpo.
A datação do artefato foi possível a partir da análise por radiocarbono de materiais encontrados na camada sobrejacente ao anel, incluindo um ramo de abeto. Os resultados indicam um intervalo entre os anos de 1167 e 1269, situando o objeto de forma segura no período medieval. As escavações no local foram realizadas em duas temporadas pelo NIKU, como parte de um projeto municipal voltado à gestão de águas pluviais.
Durante o período medieval, Tønsberg foi uma das cidades mais importantes da Noruega, localizada nas proximidades do complexo fortificado real de Tunsberghus, em Slottsfjellet. A cidade recebeu a visita ou residência de membros da realeza e do alto clero, o que levanta a hipótese de que o anel possa ter pertencido a alguém da elite local.
As escavações também revelaram diversas estruturas, como casas na área de Vektertorvet, vestígios de uma possível rua em Storgaten, um edifício incendiado com parte do telhado preservada em Prestegaten e elementos defensivos em Nedre Langgate.
As características do anel indicam que ele pertenceu a uma pessoa de elevado status social. A composição em ouro puro, aliada à decoração elaborada, sugere que se tratava de um objeto de prestígio. O tamanho estimado da peça, entre 50 e 55, aponta que o anel provavelmente era usado por uma mulher.
Na Escandinávia medieval, joias desse tipo não apenas representavam riqueza material, mas também funcionavam como símbolos de poder, proteção e posição social. O formato circular do anel, sem interrupções, era tradicionalmente associado à ideia de proteção contra forças negativas.
A coordenação do projeto arqueológico destacou a raridade e a importância do achado, ressaltando o alto nível de preservação do artefato e seu valor para a compreensão da sociedade medieval norueguesa.
Para os pesquisadores envolvidos, a descoberta contribui de forma significativa para o conhecimento sobre a ourivesaria, as crenças simbólicas e a estrutura social da Noruega durante a Idade Média.




