Por décadas, o sítio arqueológico de Jebel Khayabber, no sul do Iraque, foi visto como mais uma ruína antiga em uma região repleta de camadas históricas. Uma muralha de cerca de um quilômetro, com impressionantes oito metros de altura, chamava atenção desde os anos 1960.
Mas faltava contexto. Faltava a história por trás daquelas pedras. Agora, graças a drones, sensores geofísicos e muita persistência, arqueólogos acreditam que ali podem estar os vestígios de uma cidade lendária: uma Alexandria fundada por Alexandre, o Grande no século 4 a.C.
A descoberta não nasceu de escavações profundas, mas do olhar atento vindo do céu. Imagens aéreas e varreduras com magnetômetro de césio revelaram padrões invisíveis a olho nu: traçados de ruas, quarteirões regulares, templos, áreas produtivas, canais e estruturas portuárias.
O desenho urbano que surgiu nos mapas digitais não deixava dúvidas — aquilo não era um assentamento comum. Era uma cidade planejada, extensa e estrategicamente posicionada às margens do Rio Tigre.
Uma Alexandria fora do Egito
Quando se fala em Alexandria, quase todos pensam na cidade egípcia às margens do Mediterrâneo. Mas o império de Alexandre espalhou dezenas de cidades com esse nome pelo mundo antigo. Muitas desapareceram, mudaram de nome ou foram simplesmente esquecidas.
Essa nova hipótese aponta que Jebel Khayabber pode ter sido uma dessas Alexandrias. Fundada para funcionar como porto estratégico no Golfo Pérsico, a cidade teria surgido em um momento de mudanças nos cursos d’água da Mesopotâmia. A posição era perfeita: conectava rotas fluviais ao comércio marítimo, funcionando como elo entre o interior e o mar aberto.
Pesquisadores da Universidade de Constança identificaram que, séculos depois, inscrições romanas mencionam uma cidade chamada Charax Spasinou ou Charax Maishan exatamente nessa região, próxima à confluência dos rios Tigre e Karun. Tudo indica que, mesmo após a morte de Alexandre, o local continuou relevante por mais de 500 anos como um dos principais centros comerciais da Antiguidade.
A tecnologia revelando o que a areia escondeu
O mais intrigante é que as evidências estavam ali há décadas, mas o contexto geopolítico impediu investigações mais profundas. A região fica a apenas 15 quilômetros da fronteira com o Irã e foi palco de confrontos durante a Guerra Irã-Iraque, além de ter permanecido instável por muitos anos.
Somente a partir de 2014 expedições internacionais conseguiram retomar estudos mais consistentes. Sem a necessidade de escavar grandes áreas, os arqueólogos recorreram a drones e mapeamentos magnéticos para “enxergar” o que estava enterrado.
O resultado foi surpreendente: quarteirões organizados, possivelmente os maiores conhecidos da Antiguidade, além de sistemas de irrigação e canais que indicam uma cidade altamente estruturada.
Vista de cima, a antiga Alexandria do Tigre se revela como um projeto urbano ambicioso, digno de um império que pensava em logística, comércio e poder.
O rio que deu vida… e depois condenou a cidade
O mesmo rio que transformou a cidade em potência comercial pode ter sido responsável por seu desaparecimento. Em algum momento entre os séculos II e III d.C., o Rio Tigre mudou seu curso para oeste. A alteração geográfica retirou da cidade sua principal razão de existir: o acesso direto às rotas comerciais fluviais e marítimas.
Sem porto, sem tráfego, sem relevância econômica, a metrópole perdeu sua função estratégica. O abandono foi gradual, e a areia, paciente, fez o resto do trabalho ao longo dos séculos.
O que antes era um centro pulsante de comércio internacional virou ruína esquecida em meio ao deserto.
Uma redescoberta que muda o mapa da Antiguidade
A possível identificação dessa Alexandria no Iraque não é apenas uma curiosidade histórica. Ela ajuda a redesenhar a compreensão das rotas comerciais da Antiguidade e da própria estratégia de expansão de Alexandre.
Assim como a Alexandria egípcia conectava o Mediterrâneo ao Nilo, essa cidade conectava o Golfo Pérsico ao interior da Mesopotâmia. Eram pontos espelhados de um mesmo pensamento geopolítico: dominar os caminhos da circulação de pessoas, mercadorias e informação.
Hoje, graças à tecnologia, a areia começa a devolver ao mundo uma parte dessa história. E Jebel Khayabber deixa de ser apenas um sítio arqueológico para se tornar peça central de um quebra-cabeça milenar.
O que estava escondido às margens do Tigre por mais de dois mil anos pode finalmente estar recuperando seu nome original: uma Alexandria esquecida que, silenciosamente, ainda guarda os traços de um império.




