Adiamento de negociações entre EUA e Irã mantém incerteza sobre tráfego no Estreito de Ormuz
Empresas de transporte marítimo aguardavam avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã para avaliar a retomada do tráfego no Estreito de Ormuz, mas o adiamento das conversas reacendeu dúvidas sobre segurança e circulação de navios
O adiamento das negociações entre Estados Unidos e Irã voltou a ampliar as dúvidas sobre a retomada do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás. Empresas do setor esperavam que esta sexta-feira, 19 de junho, servisse como referência para avaliar a normalização gradual da circulação de embarcações, mas a suspensão da viagem do vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, à Suíça alterou as expectativas.
Vance era aguardado no resort suíço de Burgenstock, onde deveriam ocorrer as primeiras conversas após o acordo provisório assinado na quarta-feira, 17 de junho. A Casa Branca informou que a viagem foi cancelada em razão das dificuldades relacionadas à organização das tratativas.
“A logística dessas negociações nunca foi simples nem previsível”, afirmou um porta-voz da Casa Branca ao comunicar a desistência da viagem.
A Suíça confirmou o adiamento da reunião. O Irã, por sua vez, já havia indicado que só enviaria representantes após os Estados Unidos demonstrarem os primeiros sinais de implementação do acordo provisório. Com o impasse, empresas de navegação mantiveram cautela em relação à retomada de rotas comerciais pelo Estreito de Ormuz.
Enquanto as negociações permanecem suspensas, o órgão iraniano responsável pelo estreito anunciou nesta sexta-feira que dispensará a cobrança de taxas durante o período de negociação de 60 dias. A medida abrange taxas de segurança, proteção, serviços ambientais e seguros relacionados ao uso da rota marítima.
Segundo a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, as embarcações interessadas em cruzar a região enquanto o acordo provisório estiver em vigor deverão apresentar pedidos de trânsito com pelo menos 48 horas de antecedência. O órgão informou ainda que os navios precisarão coordenar rotas e horários de passagem por causa das áreas afetadas por minas e da necessidade de garantir condições mínimas de segurança à navegação.
Dados divulgados pelas empresas Kpler e AXSMarine indicam que 25 navios comerciais cruzaram o Estreito de Ormuz na quinta-feira, 18 de junho. O número representa o maior volume registrado desde 18 de abril e equivale a cinco vezes a média diária dos dez primeiros dias de junho, segundo a AXSMarine.
Apesar do aumento, o fluxo ainda está distante do patamar observado antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. Antes do conflito, a média era de 145 navios atravessando o estreito diariamente. A Organização Marítima Internacional estima que cerca de 500 navios-petroleiro permanecem bloqueados no Golfo Pérsico à espera da liberação da rota.
Duas grandes empresas do setor, Mitsui OSK Lines e Hapag-Lloyd, informaram que aguardam a definição de condições de segurança antes de retomar plenamente o trânsito de embarcações pela região. A avaliação entre companhias marítimas é de que um acordo diplomático precisa ser acompanhado de medidas operacionais efetivas no estreito.
O presidente-executivo da Mitsui OSK Lines, Jotaro Tamura, afirmou ao jornal Financial Times que a segurança das rotas precisa ser demonstrada de forma prática.
“O que terá que ser estabelecido não é apenas um simples acordo entre os países envolvidos, mas ele precisa ser concreto e traduzido em situações reais no Estreito de Ormuz, para que as empresas de navegação possam se sentir confortáveis para atravessar”, declarou Tamura.
A incerteza também afetou o mercado internacional de petróleo. O barril do Brent, referência global, iniciou a sexta-feira em queda de 1,29%, cotado a US$ 78,82 às 21h de quinta-feira, pelo horário de Brasília. Durante a madrugada, passou a subir e chegou a US$ 80,70, avanço de 1,06%, por volta das 3h30. Às 9h10, era negociado a US$ 79,92, alta de 0,09%.
O petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, era negociado a US$ 76,15 por volta das 9h10, com queda de 0,57%.
Além da indefinição política, as empresas marítimas enfrentam desafios operacionais para retomar a circulação. A presença de minas em parte do estreito exige planejamento de rotas e coordenação prévia com as autoridades responsáveis pela região. O risco de navegação permanece como um dos principais fatores considerados pelas companhias antes de liberar novas travessias.
Outro problema envolve as embarcações que permaneceram paradas por longos períodos. Segundo informações do jornal The New York Times, o acúmulo de cracas e organismos marinhos nos cascos dos navios durante cerca de três meses de espera pode reduzir a velocidade das embarcações e, em alguns casos, dificultar ou impedir o deslocamento imediato.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de energia. A região liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico, sendo utilizada por navios que transportam petróleo, gás natural liquefeito e outras cargas estratégicas. Qualquer restrição prolongada no tráfego tende a afetar custos logísticos, prazos de entrega e preços internacionais de energia.
Com o adiamento das negociações, empresas do setor, operadores de mercado e autoridades internacionais seguem aguardando novos sinais sobre a implementação do acordo provisório. A normalização do tráfego dependerá não apenas da retomada das conversas diplomáticas, mas também da comprovação de que as condições de segurança no Estreito de Ormuz permitem a passagem regular de embarcações comerciais.
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Lara Gabriely escreve sobre assuntos locais, mas também sobre assuntos relacionados à política dos estados do Paraná e Santa Catarina, além de outros fatos interesse regional.
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