No coração abrasador da Península Arábica, onde o vento redesenha as dunas como páginas de um livro antigo, sobrevive uma história que parece impossível de ignorar. Fala-se de uma cidade majestosa, erguida com colunas imensas, repleta de riquezas e orgulho, que teria desaparecido em um único dia, tragada pelo próprio deserto. Para alguns, seu nome é Ubar. Para outros, Iram, a cidade das muitas colunas. Para muitos, ela é simplesmente a “Atlântida das Areias”.
A narrativa atravessou séculos misturando fé, imaginação e relatos de geógrafos antigos. Ela foi citada em tradições religiosas, mencionada por viajantes e eternizada na literatura oriental. Mas, diferente de outras lendas, a história dessa cidade não ficou restrita aos livros. Ela provocou uma busca real, persistente e, por vezes, obsessiva.
Exploradores, arqueólogos e aventureiros se lançaram ao deserto em busca de vestígios. Com o passar do tempo, a tecnologia entrou em cena. Satélites passaram a vasculhar a superfície arenosa em busca de padrões invisíveis a olho nu. O que começou como uma fábula passou a ganhar contornos de investigação científica.
O poder das histórias de As Mil e Uma Noites
Grande parte do fascínio por Ubar/Iram foi amplificado por uma das obras literárias mais influentes do mundo: As Mil e Uma Noites. A coletânea de contos que atravessou fronteiras culturais ajudou a moldar o imaginário coletivo sobre cidades exóticas, tesouros escondidos e reinos desaparecidos.
A própria origem do livro já é envolta em mistério. Acredita-se que suas primeiras versões tenham surgido a partir de histórias populares da Índia e da Pérsia, compiladas por volta do século IX na Síria. Ao longo dos séculos, novos contos foram incorporados, especialmente do Iraque, Egito e da própria região árabe.
Quando a obra chegou à Europa, no início do século XVIII, ganhou novas camadas. Histórias que hoje são mundialmente conhecidas, como Aladim, Ali Babá e Simbad, foram adicionadas às traduções francesas e inglesas, consolidando o caráter mágico, misterioso e grandioso das narrativas orientais.
Nesse contexto literário, a ideia de uma cidade magnífica engolida pelo deserto parecia não apenas plausível, mas inevitável.
A busca que saiu dos livros e foi parar nos satélites da NASA
Séculos depois, a lenda ganhou novo fôlego com a ajuda da ciência. Pesquisadores começaram a usar imagens de satélite para identificar antigos caminhos de caravanas que cruzavam o deserto transportando olíbano — a resina aromática que, na Antiguidade, valia mais que ouro.
Essas rotas convergiam para pontos específicos. Um deles chamou atenção: uma área no atual Omã, próxima ao sítio arqueológico de Shisr. Ali, ruínas de uma antiga fortificação surgiram sob as areias. Para alguns pesquisadores, aquilo poderia ser o que restou de Ubar.
A empolgação inicial deu lugar à cautela científica. O que foi encontrado não era exatamente uma cidade colossal, mas um importante entreposto comercial na rota do olíbano. Ainda assim, a descoberta foi suficiente para mostrar que a lenda tinha, ao menos, um pé fincado na realidade histórica.
Geólogos sugeriram que o local pode ter sofrido um colapso do solo causado por cavidades subterrâneas em rochas calcárias, engolindo parte da estrutura. Uma cidade que “afundou” no deserto já não parecia tão fantasiosa.
Entre mito, fé e geografia
A cidade de Iram também aparece em tradições religiosas como exemplo de prosperidade que se transformou em ruína. Isso reforçou a ideia de que não se tratava apenas de literatura, mas de uma memória antiga preservada em diferentes narrativas culturais.
Geógrafos clássicos mencionaram centros urbanos grandiosos na região, hoje totalmente desertificada. O que antes poderia ter sido um ponto de encontro de rotas comerciais vitais acabou soterrado por mudanças climáticas, tempestades de areia e transformações geológicas ao longo dos séculos.
A junção dessas pistas — textos antigos, rotas comerciais, descobertas arqueológicas e estudos geológicos — construiu um cenário onde a lenda e a ciência dialogam de forma surpreendente.
Por que essa história continua fascinando o mundo
A ideia de uma cidade riquíssima, orgulhosa e subitamente apagada do mapa mexe com algo profundo no imaginário humano. Ela fala sobre poder, queda, mistério e o desejo eterno de descobrir o que está escondido.
Ubar/Iram permanece como um enigma parcialmente resolvido. Talvez nunca tenha sido a metrópole dourada descrita nos contos. Talvez tenha sido “apenas” um entreposto vital em uma rota comercial histórica. Mas isso não diminui sua força simbólica.
Pelo contrário. A mistura de literatura, arqueologia, religião e tecnologia transformou essa lenda em uma das buscas mais intrigantes já realizadas no deserto.
No fim, a cidade perdida das areias pode não ser apenas um lugar. Pode ser a prova de que algumas histórias são tão poderosas que atravessam séculos, motivam expedições reais e continuam despertando a mesma curiosidade que encantou leitores de As Mil e Uma Noites há centenas de anos.




