Um episódio ocorrido em 1923 colocou em evidência as fragilidades na proteção do patrimônio cultural no Sudeste Asiático durante o período colonial. O jovem casal francês André Malraux e Clara Malraux organizou a retirada ilegal de esculturas de um templo milenar no Camboja, desencadeando repercussão internacional.
Os dois chegaram à então Indochina Francesa sob o pretexto de realizar estudos arqueológicos. Com autorização obtida em Paris, apresentaram-se a instituições locais como pesquisadores interessados em documentar vestígios do antigo Império Khmer. Na prática, o plano consistia em localizar áreas pouco protegidas para retirar peças com potencial de venda no mercado de arte.
O alvo foi o templo de Banteay Srei, parte do complexo de Angkor, conhecido pelas esculturas em arenito rosa. Acompanhados por auxiliares, o grupo percorreu a região e removeu elementos decorativos das estruturas, incluindo relevos e figuras esculpidas.

As peças foram embaladas e identificadas de forma a disfarçar o conteúdo, com a intenção de transportá-las até a Europa. O plano, no entanto, foi interrompido após suspeitas levantadas por autoridades locais, que monitoraram a movimentação do grupo.
A interceptação ocorreu ainda em território cambojano, quando agentes coloniais localizaram o material e prenderam os envolvidos. O caso ganhou destaque na imprensa da época, sendo tratado como um exemplo de saque ao patrimônio histórico.
O julgamento foi realizado no ano seguinte, em Phnom Penh. André Malraux foi condenado, assim como um dos integrantes da expedição, embora a pena tenha sido posteriormente reduzida após mobilização de intelectuais franceses. O casal acabou retornando à Europa sem cumprir integralmente a sentença.
Com o passar dos anos, André Malraux construiu carreira como escritor e figura política na França, chegando ao cargo de ministro da Cultura. Ainda assim, o caso no Camboja permanece como um dos episódios mais controversos de sua trajetória.
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