Mulheres com idade entre 40 e 49 anos lideram a compra de canetas emagrecedoras no Brasil, de acordo com dados obtidos a partir do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), base vinculada à Anvisa. O levantamento considera as vendas realizadas em janeiro de 2026, primeiro mês com dados disponíveis desde a retomada da obrigatoriedade de registro, em 2025.
No período, foram comercializadas 443.815 caixas de medicamentos classificados como agonistas do hormônio GLP-1, utilizados no tratamento de obesidade e diabetes tipo 2. Entre os produtos analisados estão Mounjaro, Ozempic, Wegovy e o Rybelsus, este último em formato de comprimido.
A idade média dos compradores foi de 47 anos entre mulheres e 46 anos entre homens. A faixa etária de 40 a 49 anos concentrou 26,5% das aquisições em ambos os gêneros, sendo o grupo com maior participação no consumo.
Entre os medicamentos, o Mounjaro respondeu por 52,8% das vendas, com cerca de 234 mil unidades comercializadas. O Wegovy representou 24,8% do total. Já os medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic e Rybelsus, somaram 45,3% das vendas.
A venda dessas medicações passou a ser controlada a partir de junho de 2025. Apesar de apresentarem resultados na redução de peso e serem alvo de estudos para outras aplicações, como no tratamento de vícios, os efeitos de longo prazo ainda não são totalmente conhecidos.
Dados da Anvisa indicam que 32% das notificações de eventos adversos relacionados à semaglutida estão associados a usos não previstos em bula ou não aprovados. Em âmbito global, a Organização Mundial da Saúde aponta uma taxa de 10% para esse tipo de ocorrência.
A base do SNGPC não permite identificar individualmente os pacientes nem distinguir se uma mesma pessoa adquiriu mais de uma unidade. Ainda assim, os dados representam o primeiro retrato público do mercado legal desses medicamentos no país após a retomada do sistema.
A distribuição geográfica das vendas mostra concentração na região Sudeste, responsável por 60,4% das compras, o equivalente a 268.155 caixas. A região concentra 41,6% da população brasileira. Em termos proporcionais, o Distrito Federal apresentou o maior consumo, com 508 caixas por 100 mil habitantes.
A maior parte das vendas, 98,1% do total, foi realizada mediante prescrição médica com registro no Conselho Regional de Medicina. Uma parcela menor foi registrada com receitas emitidas por outros profissionais habilitados, incluindo 223 prescrições feitas por médicos veterinários.
Com o fim da patente da semaglutida, anunciado recentemente, há expectativa de redução nos preços e ampliação do acesso aos medicamentos. Atualmente, uma caixa de Mounjaro pode custar a partir de R$ 1.500, enquanto o Ozempic é comercializado por cerca de R$ 963, valor equivalente a aproximadamente 60% do salário mínimo vigente.
A diretora da Worldpanel by Numerator, Kesley Gomes, avaliou o perfil de consumo e as perspectivas de mercado. Ela afirma: “Identificamos que 45% dos consumidores dessas medicações são de classes mais altas”. Em relação ao cenário futuro, acrescenta: “Além da queda de patente, os conhecimentos sobre os benefícios do uso estão se expandindo e podem ser fio condutor de um comportamento de massa”.
A endocrinologista Maria Edna Melo, coordenadora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, comentou a metodologia de análise por volume de vendas. Ela afirma: “Tem pacientes que compram uma caneta que serviria por um mês em um caso, e eles podem usar por mais tempo porque precisam de uma dose menor”.
As bulas dos medicamentos estabelecem idade mínima para uso: 12 anos no caso da liraglutida e 18 anos para semaglutida e tirzepatida. Mesmo assim, o sistema registrou 3.296 vendas para pessoas abaixo dessas faixas etárias. A Anvisa informou que o preenchimento dos dados é de responsabilidade das farmácias, podendo haver erros de registro ou casos de uso fora das indicações aprovadas, conhecido como uso off label.
O avanço no consumo dessas medicações ocorre em um contexto de maior busca por tratamentos para obesidade, ao mesmo tempo em que levanta discussões sobre segurança, acesso e regulação do uso.

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