Após mais de cem anos fora de seu território de origem, o tambor sagrado Djidji Ayôkwé foi oficialmente devolvido pela França à Costa do Marfim. O artefato, retirado do país africano em 1916 durante a administração colonial francesa, chegou a Abidjan no início de março, marcando um momento considerado histórico pelas autoridades marfinenses.
A restituição ocorreu após quatro anos de negociações desde que o presidente francês Emmanuel Macron anunciou, em 2021, a intenção de devolver a peça. A medida exigiu aprovação formal do Parlamento francês para autorizar a saída definitiva do objeto do acervo público, onde estava sob guarda do Museu Quai Branly – Jacques Chirac.
Chegada a Abidjan
O Djidji Ayôkwé desembarcou no aeroporto de Port Bouët, em Abidjan, às 8h45 da manhã do dia 6 de março. Antes disso, havia sido entregue oficialmente às autoridades da Costa do Marfim em Paris.
Durante a recepção, representantes do governo classificaram o retorno como um marco de memória e justiça histórica. A ministra da Cultura e da Francofonia da Costa do Marfim, Françoise Remarck, afirmou que o momento simboliza reconexão com o patrimônio ancestral e destacou o apoio do presidente Alassane Ouattara nas negociações diplomáticas.
Líderes tradicionais da comunidade Adjamé-Bingerville também participaram das cerimônias, ressaltando o valor espiritual e identitário do instrumento. Um grupo cultural realizou a dança tradicional tchaman durante o desembarque da peça.
Significado histórico do tambor
O Djidji Ayôkwé é um tambor falante de aproximadamente quatro metros de comprimento e 430 quilos. Esse tipo de instrumento, confeccionado em formato semelhante a uma ampulheta, é capaz de reproduzir entonações e ritmos da fala humana.
Entre o povo Ebrié, o tambor desempenhava papel político e social relevante. Era utilizado para transmitir mensagens a longas distâncias, anunciar celebrações, comunicar falecimentos e alertar aldeias sobre perigos iminentes. Em 1916, após resistência local ao trabalho forçado imposto pelas autoridades coloniais, o instrumento foi confiscado e levado para a França.
Instalação no Museu das Civilizações
Está prevista uma nova cerimônia para marcar a instalação permanente do tambor no Museu das Civilizações da Costa do Marfim. Para viabilizar a exposição e a preparação técnica da peça, a UNESCO destinou recursos financeiros por meio de seu escritório em Abidjan, com foco em pesquisa e capacitação museológica.
Especialistas locais avaliam que o retorno do Djidji Ayôkwé pode abrir caminho para novas negociações de restituição. Autoridades culturais informaram que outros objetos históricos também estão sendo analisados em tratativas entre França e Costa do Marfim.
A devolução do tambor integra um movimento mais amplo de revisão histórica sobre bens culturais retirados de territórios africanos durante o período colonial. Nos últimos anos, governos europeus têm sido pressionados a reavaliar acervos formados nesse contexto.
O retorno do Djidji Ayôkwé simboliza não apenas a recuperação de um objeto, mas também o reconhecimento do valor cultural e político de peças que representam memória coletiva e identidade nacional. Para a Costa do Marfim, o instrumento volta a ocupar seu lugar como patrimônio ancestral e elemento de coesão social.
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