Uma página considerada desaparecida de um dos manuscritos científicos mais relevantes da Antiguidade foi identificada na coleção do Museu de Belas Artes de Blois, no centro da França. O fólio pertence ao chamado Palimpsesto de Arquimedes e contém trecho de uma das principais obras do matemático grego Arquimedes de Siracusa. A descoberta foi realizada pelo pesquisador Victor Gysembergh, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, e publicada em 6 de março de 2026 na revista Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik.
O fólio identificado corresponde à folha 123 do manuscrito e traz uma passagem do tratado “Sobre a Esfera e o Cilindro”, Livro I, Proposições 39 a 41. O texto é considerado fundamental para a história da matemática por tratar de resultados geométricos que influenciaram gerações posteriores de estudiosos.
O Palimpsesto de Arquimedes é um manuscrito grego bizantino do século X que foi reutilizado no século XIII para a escrita de um texto litúrgico cristão. A prática de produzir palimpsestos era comum na Idade Média, em razão do elevado custo do pergaminho. O texto original foi raspado para dar lugar às novas orações, o que manteve, por séculos, os escritos científicos parcialmente ocultos sob o conteúdo religioso.
Após sua produção, o manuscrito permaneceu no mosteiro de Mar Saba, no deserto da Judeia, e posteriormente foi transferido para Constantinopla. Em 1906, o filólogo dinamarquês Johan Ludvig Heiberg fotografou o documento e reconheceu sua relevância histórica. Décadas depois, o manuscrito desapareceu do registro público até ser leiloado em 1998 e adquirido por um colecionador particular, que o disponibilizou para estudo no Walters Art Museum, em Baltimore.
A folha 123 fazia parte de um conjunto de três páginas registradas nas fotografias realizadas por Heiberg em 1906, mas que posteriormente foram consideradas extraviadas. A identificação no museu francês ocorreu quando Gysembergh reconheceu, entre folhas avulsas de uma coleção artística, características compatíveis com o manuscrito original. A confirmação foi realizada por comparação direta com as imagens preservadas na Biblioteca Real Dinamarquesa, em Copenhague.
Um dos lados do fólio apresenta trecho em grande parte legível da obra de Arquimedes, ainda parcialmente coberto por texto litúrgico medieval. O outro lado está obscurecido por uma iluminura do século XX que representa o profeta Daniel entre dois leões, possivelmente adicionada por volta de 1942 por um antigo proprietário que não teria conhecimento do conteúdo subjacente.
O pesquisador planeja, mediante as autorizações necessárias, realizar campanhas de imageamento multiespectral combinadas com análise de fluorescência de raios X baseada em síncrotron. Essas técnicas permitem identificar camadas de tinta e recuperar textos apagados sem danificar o pergaminho. Métodos semelhantes já foram aplicados com êxito em outros manuscritos antigos, ampliando a legibilidade de trechos antes considerados irrecuperáveis.
A redescoberta da página pode não apenas possibilitar a leitura integral do fólio 123, mas também estimular um novo exame de todo o palimpsesto com tecnologias mais avançadas do que as utilizadas nos estudos realizados no início dos anos 2000. Especialistas apontam que a aplicação de ferramentas modernas pode contribuir para esclarecer passagens ainda obscuras e aprofundar a compreensão da produção científica da Grécia Antiga.




