O diabetes tem avançado de forma significativa no Brasil nas últimas décadas e os dados mais recentes indicam uma tendência preocupante, especialmente entre as mulheres. Um levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde mostra que a doença apresenta prevalência maior no público feminino e que o número de diagnósticos cresceu de forma expressiva nos últimos anos.
De acordo com o relatório Vigitel 2025, o diabetes aumentou aproximadamente 135% entre 2006 e 2024 no país. No início desse período, cerca de 5,5% da população relatava ter recebido diagnóstico da doença. Já em 2024, esse número subiu para 12,9%, revelando um crescimento relevante no número de brasileiros convivendo com o problema.
A pesquisa também apontou uma diferença significativa entre homens e mulheres. Segundo os dados, 14,3% das mulheres afirmaram ter diabetes, enquanto entre os homens a taxa foi de 11,2%. Isso significa que a incidência da doença é cerca de 27,7% maior no público feminino.
Especialistas acreditam que fatores ligados ao estilo de vida podem ajudar a explicar essa diferença. O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier, em Campinas, e integrante do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), afirma que a rotina de muitas mulheres pode contribuir para o aumento da doença.
Segundo ele, a chamada “dupla jornada” enfrentada por grande parte das mulheres — que inclui trabalho profissional e responsabilidades domésticas — acaba impactando diretamente a saúde. Quando esse cenário se combina com sedentarismo, noites mal dormidas e excesso de peso, o risco de desenvolver diabetes aumenta consideravelmente.
Outro ponto importante destacado pelo especialista é que o diabetes pode apresentar sinais iniciais que muitas vezes passam despercebidos. Entre esses sintomas está a visão borrada ou instável, um problema que pode surgir devido às alterações provocadas pelo excesso de glicose no organismo.
A presença elevada de açúcar no sangue pode afetar estruturas importantes do olho, como o cristalino, responsável por ajudar a focar as imagens. Esse processo pode provocar alterações visuais, levando muitas pessoas a procurar atendimento oftalmológico antes mesmo de saber que têm diabetes.
Por esse motivo, consultas regulares com oftalmologistas são consideradas fundamentais para a detecção precoce da doença. Muitas vezes, alterações observadas no exame de fundo de olho podem indicar a presença de diabetes antes mesmo de outros sintomas mais evidentes aparecerem.
Especialistas alertam que a doença, quando não controlada, pode causar danos importantes à visão. O diabetes pode aumentar em até 25 vezes o risco de perda visual, principalmente devido a complicações que afetam a retina.
Entre essas complicações está a retinopatia diabética, uma condição causada por alterações nos vasos sanguíneos da retina. O aumento da glicose no sangue pode provocar inflamação, mudanças na circulação e enfraquecimento dos vasos, que passam a apresentar vazamentos ou crescimento irregular.
Além da retinopatia, o diabetes também pode acelerar o aparecimento de catarata. Estudos internacionais indicam que pessoas com diabetes apresentam até o dobro de risco de desenvolver essa condição ocular, que causa opacidade do cristalino e redução da capacidade de enxergar com nitidez.
O oftalmologista explica que isso ocorre porque o excesso de glicose pode ser transformado em sorbitol dentro do olho. Esse processo faz com que o cristalino absorva mais água, provocando alterações que contribuem para o envelhecimento precoce da lente ocular.
Por essa razão, pacientes diabéticos devem manter acompanhamento oftalmológico frequente. Caso percebam sintomas como manchas escuras na visão, pontos flutuantes ou distorções visuais, é importante procurar atendimento médico imediatamente, pois esses sinais podem indicar problemas mais graves, como descolamento de retina ou degeneração macular.
Um levantamento internacional realizado em 41 países revelou outro dado preocupante: cerca de metade das pessoas com diabetes só recebe o diagnóstico anos após o início da doença. Quanto mais tardia é a identificação do problema, maiores são as chances de complicações.
A pesquisa também apontou que aproximadamente 31% dos pacientes nunca receberam orientações sobre retinopatia diabética ou edema macular, duas condições frequentemente associadas à perda de visão em pessoas entre 20 e 60 anos.
No Brasil, o diagnóstico tardio ainda é um desafio importante. Muitos brasileiros não têm o hábito de realizar check-ups médicos periódicos, o que dificulta a identificação precoce de doenças crônicas.
O diabetes pode se manifestar de duas formas principais. Cerca de 10% dos casos correspondem ao diabetes tipo 1, uma condição causada por falhas no sistema imunológico que prejudicam a produção de insulina pelo pâncreas. Nesse tipo da doença, o tratamento geralmente envolve a reposição do hormônio por meio de aplicações regulares.
Já aproximadamente 90% dos casos são classificados como diabetes tipo 2. Nesse cenário, o organismo desenvolve resistência à insulina, o que dificulta a utilização da glicose pelas células. O desenvolvimento desse tipo está fortemente ligado ao estilo de vida, especialmente alimentação inadequada, excesso de peso e falta de atividade física.
Além das complicações oculares, o diabetes pode provocar diversos problemas em outros órgãos do corpo. Entre eles estão doenças cardiovasculares, insuficiência renal, danos aos nervos periféricos e até amputações decorrentes de problemas circulatórios.
Por isso, o acompanhamento médico multidisciplinar é essencial para quem convive com a doença. O tratamento geralmente envolve controle rigoroso da glicemia, uso de medicamentos específicos, alimentação equilibrada e monitoramento constante da saúde.
No campo oftalmológico, algumas condições associadas ao diabetes podem exigir tratamentos específicos. A catarata, por exemplo, é tratada por meio de cirurgia para substituição do cristalino por uma lente artificial.
Outras complicações, como retinopatia diabética avançada ou degeneração macular, podem ser tratadas com injeções intraoculares, terapias a laser ou procedimentos cirúrgicos específicos, dependendo da gravidade do quadro.
Apesar dos riscos, especialistas reforçam que o diabetes pode ser prevenido ou controlado por meio de hábitos saudáveis. A prática regular de exercícios físicos é considerada uma das estratégias mais importantes para reduzir o risco da doença.
Recomenda-se a realização de pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, além da adoção de uma alimentação rica em alimentos naturais, como frutas, verduras, legumes e grãos integrais.
Também é importante reduzir o consumo de ultraprocessados, refrigerantes, frituras e alimentos com alto teor de açúcar e gordura. O controle do peso corporal, a boa qualidade do sono e a redução do tempo de exposição a telas antes de dormir também são fatores que contribuem para a saúde metabólica.
Especialistas destacam que cuidar da saúde de forma preventiva pode fazer grande diferença na qualidade de vida ao longo dos anos. Consultas médicas periódicas, exames laboratoriais e avaliação oftalmológica regular são ferramentas essenciais para detectar alterações precocemente.
A mensagem dos especialistas é clara: o diabetes é uma doença silenciosa, mas que pode causar consequências graves quando não diagnosticada ou tratada adequadamente. Por isso, incluir cuidados com a saúde na rotina é uma das decisões mais importantes para evitar complicações e preservar o bem-estar ao longo da vida.

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