Uma pequena placa de chumbo encontrada no sudeste dos Países Baixos está ajudando pesquisadores a compreender práticas mágicas presentes no cotidiano das comunidades que viveram sob domínio romano. Datado do século II d.C., o objeto contém uma inscrição de caráter ritual escrita em grego, além de referências a divindades e entidades ligadas ao universo religioso egípcio.
Conhecido como tabuleta de maldição, o artefato foi analisado por Rodney Ast, pesquisador da Universidade de Heidelberg, e por outros especialistas. O trabalho utilizou recursos avançados de processamento de imagens para recuperar detalhes que já não podiam ser identificados com facilidade a olho nu.
Tabuleta romana foi encontrada dentro de um poço
A placa foi localizada em um poço situado na área do antigo assentamento militar romano de Coriovallum. O local integrou a estrutura de ocupação romana na região que atualmente corresponde ao território dos Países Baixos.
O objeto mede aproximadamente nove centímetros de comprimento e quase cinco centímetros de largura. Apesar das dimensões reduzidas, sua superfície preservou informações consideradas relevantes para o estudo das crenças, das relações sociais e das práticas religiosas daquele período.
O chumbo era um material utilizado para registrar textos de caráter mágico. Neste caso, os pesquisadores precisaram recorrer a ferramentas tecnológicas para ampliar a legibilidade da inscrição, afetada pelo tempo e pelas condições de conservação.
A equipe empregou uma técnica conhecida como imagem por transformação de refletância. O procedimento consiste em fotografar o mesmo objeto diversas vezes, alterando a posição e a intensidade da iluminação.
As fotografias são posteriormente reunidas por um programa de computador, que cria uma representação digital com luz ajustável. Dessa maneira, os pesquisadores podem observar a superfície da peça por diferentes ângulos e destacar sulcos, letras e símbolos pouco perceptíveis em uma imagem convencional.
A aplicação da técnica permitiu melhorar a visualização das inscrições presentes na placa. Esse tipo de análise é especialmente útil para objetos arqueológicos desgastados, nos quais pequenas variações de relevo podem representar letras ou sinais importantes para a interpretação do conteúdo.
Maldição foi registrada em grego
As chamadas tabuletas de maldição encontradas em territórios romanos costumam apresentar encantamentos redigidos em latim. A peça descoberta em Coriovallum, porém, chama a atenção porque seu texto foi escrito em grego.
A inscrição também apresenta invocações a deuses e demônios egípcios, indicando uma combinação de diferentes tradições religiosas. O conteúdo mostra como crenças originárias de diversas regiões podiam circular pelos territórios controlados por Roma.
Essa mistura cultural não se limitava à religião oficial. Práticas particulares, pedidos de proteção, vingança ou interferência sobrenatural também podiam incorporar elementos de diferentes povos e idiomas.
Símbolos mágicos aparecem na placa de chumbo
Além do texto, os pesquisadores identificaram três sinais considerados mágicos. Esses caracteres teriam a função de transmitir a mensagem escrita na placa às forças sobrenaturais invocadas durante o ritual.
Segundo Rodney Ast, os símbolos não eram simples elementos decorativos. Dentro da lógica religiosa de quem produziu o objeto, eles desempenhavam um papel no estabelecimento da comunicação com as entidades mencionadas na inscrição.
A combinação de palavras, nomes e sinais reforça a interpretação de que a placa foi preparada para uma finalidade específica. Entretanto, algumas perguntas sobre o objetivo exato da maldição permanecem sem resposta definitiva.
Quatro nomes podem estar ligados ao ritual
A inscrição registra os nomes de quatro pessoas: dois homens com nomes de origem latina e duas mulheres com nomes gregos. Os pesquisadores consideram mais de uma possibilidade para explicar a presença dessas pessoas no texto.
Uma hipótese é que os quatro indivíduos fossem os alvos da maldição. Outra possibilidade é que eles tenham solicitado ou pronunciado o encantamento contra uma terceira pessoa, cuja identidade não aparece de forma clara no material analisado.
A incerteza demonstra a dificuldade de interpretar completamente documentos desse tipo. O texto pode ter sido elaborado com abreviações, códigos mágicos ou construções compreendidas apenas por quem participou do ritual.
A descoberta oferece novas informações sobre a vida no assentamento de Coriovallum durante o século II. Embora o local tivesse caráter militar, a placa demonstra que práticas religiosas particulares também estavam presentes naquele ambiente.
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Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
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