A elevação dos preços do petróleo e dos combustíveis aumenta o interesse por veículos elétricos novos e usados na Europa, enquanto montadoras e plataformas do setor acompanham avanço da demanda

Alta dos combustíveis amplia procura por veículos elétricos na Europa

A elevação dos preços do petróleo e dos combustíveis aumenta o interesse por veículos elétricos novos e usados na Europa, enquanto montadoras e plataformas do setor acompanham avanço da demanda

A alta dos preços dos combustíveis, associada ao aumento do petróleo em meio ao conflito envolvendo o Irã, tem ampliado a procura por veículos elétricos novos e usados na Europa, segundo dados do setor automotivo. O movimento ocorre em um momento de expansão da oferta de modelos mais acessíveis, melhora da infraestrutura de recarga e maior presença de fabricantes chinesas no mercado europeu.

Apesar do crescimento da demanda, executivos do setor avaliam que parte desse interesse pode perder força caso os preços da gasolina e do diesel recuem nos próximos meses. A avaliação é de que o custo dos combustíveis continua sendo um dos fatores que influenciam diretamente a decisão de compra dos consumidores, especialmente em mercados onde o preço inicial dos veículos elétricos ainda é superior ao de modelos equivalentes com motor a combustão.

O cenário internacional também interfere nas expectativas do mercado. Mesmo após um acordo recente envolvendo Estados Unidos e Irã, representantes do setor afirmam que interrupções e ajustes nas rotas de transporte marítimo podem fazer com que os fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz levem semanas para retornar à normalidade. Com isso, os preços dos combustíveis devem permanecer pressionados por um período prolongado.

Dados do grupo de pesquisa New Automotive e da associação setorial E-Mobility Europe indicam que os registros de novos veículos elétricos cresceram 34% em maio, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, em 17 mercados que concentram mais de 90% das vendas de automóveis da União Europeia e da Associação Europeia de Livre Comércio. Conforme o levantamento, os modelos totalmente elétricos representaram quase um em cada quatro novos registros nesses mercados.

A expansão europeia acompanha uma tendência global de avanço da eletrificação no setor automotivo. Segundo a Agência Internacional de Energia, quase 30% dos carros vendidos no mundo em 2026 deverão ser elétricos. A previsão da agência é de que as vendas globais desses veículos alcancem 23 milhões de unidades neste ano, o equivalente a quase um terço do mercado mundial de automóveis novos, com a China mantendo posição dominante no segmento.

O relatório Perspectivas Globais do Veículo Elétrico, publicado pela AIE no mês passado, aponta que as vendas globais de veículos elétricos cresceram 20% em 2025 e ultrapassaram 20 milhões de unidades. Com esse resultado, um em cada quatro automóveis novos vendidos no mundo no ano passado foi elétrico. Em cerca de 40 países, os veículos elétricos já responderam por pelo menos 10% dos emplacamentos.

A tendência se manteve em 2026, embora o primeiro trimestre tenha registrado queda global de 8% nas vendas, influenciada por mudanças regulatórias na China e nos Estados Unidos. A retração foi compensada pelo crescimento em outras regiões. Na Europa, as vendas aumentaram cerca de 30%. Na região Ásia-Pacífico, excluindo a China, a expansão chegou a 80%. Na América Latina, o crescimento foi de 75%, conforme os dados citados pela agência.

Para a AIE, a maior competitividade dos veículos elétricos tem sido um fator decisivo para sustentar a demanda. A redução dos preços das baterias, a ampliação da rede de recarga e a chegada de modelos mais baratos contribuem para tornar os carros elétricos mais acessíveis a diferentes perfis de consumidores.

A China segue como principal força global do setor. De acordo com a AIE, fabricantes chineses responderam por cerca de 60% das vendas globais de veículos elétricos em 2025. Montadoras europeias e norte-americanas representaram aproximadamente 15% cada uma. O país asiático também concentra grande parte da produção mundial desses automóveis.

Dos quase 22 milhões de veículos elétricos fabricados no mundo no ano passado, cerca de três quartos saíram de fábricas chinesas. Como a produção superou a demanda interna, as exportações da China mais que dobraram e passaram de 2,5 milhões de unidades, segundo o relatório. Fora dos três maiores mercados globais, China, Europa e Estados Unidos, os veículos chineses também ampliaram participação. Cerca de 55% dos carros elétricos vendidos no restante do mundo foram importados da China, ante menos de 5% há cinco anos.

A presença chinesa também é relevante na cadeia produtiva das baterias. O país controla mais de 80% da produção mundial de células para baterias e mantém participação ainda maior na fabricação de materiais estratégicos utilizados nesse setor.

Na Europa, a alta dos combustíveis já aparece nos indicadores das montadoras. O presidente-executivo da Renault, François Provost, afirmou à agência Reuters que a carteira de pedidos de veículos elétricos da empresa aumentou 50% em alguns países desde o início do conflito envolvendo o Irã, no fim de fevereiro. Ele ponderou, no entanto, que esse ritmo pode diminuir caso os preços dos combustíveis voltem a cair.

Jim Baumbick, chefe da Ford Europa, também afirmou que o conflito aumentou o interesse dos clientes por veículos elétricos, mas alertou para o risco de interpretar esse movimento como uma mudança definitiva de comportamento.

O avanço da demanda ocorre ao mesmo tempo em que as montadoras ampliam a oferta de modelos mais baratos na Europa. O custo inicial dos veículos elétricos ainda é uma das principais barreiras à adoção da tecnologia, mas a chegada de novos modelos compactos e com preços mais competitivos tem contribuído para ampliar o mercado.

As fabricantes chinesas têm expandido sua presença para além dos veículos maiores e passaram a disputar também o segmento de hatchbacks compactos. A BYD, por exemplo, lançou o modelo Dolphin G em Berlim na semana passada, dentro da estratégia de ampliar sua atuação no mercado europeu.

Andy Palmer, ex-executivo da Nissan que participou do lançamento do Leaf, um dos primeiros veículos elétricos de grande volume do mercado, afirmou que os modelos chineses têm influenciado diretamente a procura.

“O interesse dos consumidores por veículos elétricos está claramente sendo estimulado pela chegada ao mercado de carros chineses de baixo custo e muito bons”, declarou Palmer.

Além dos veículos novos, o mercado de usados também ganha relevância. A oferta de carros elétricos seminovos vem aumentando, acompanhada por demanda crescente. O marketplace online OLX informou que os contatos de compradores interessados em marcas chinesas na França cresceram mais de quatro vezes em maio, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Na Alemanha, a plataforma Carwow, voltada à compra e venda de veículos novos e usados, informou que o interesse por elétricos, medido por configurações realizadas e consultas de compra, se estabilizou entre 70% e 75%. No início deste ano, o índice estava próximo de 40%.

“Esse desenvolvimento deixou de ser um efeito de curto prazo e se transformou em uma tendência sustentável”, afirmou Philipp Sayler von Amende, diretor-geral da Carwow Alemanha.

Os veículos elétricos usados continuam com preços relativamente baixos em comparação a modelos equivalentes a combustão. Os cortes de preços liderados pela Tesla em 2023 reduziram os valores de revenda, embora os preços comecem a subir novamente diante do fortalecimento da demanda.

A plataforma dinamarquesa Bilbasen projeta que os preços dos veículos elétricos usados aumentem 10% neste ano. No Reino Unido, veículos elétricos com dois a quatro anos de uso são vendidos por cerca de 33% do preço original, enquanto modelos movidos a combustíveis fósseis mantêm, em média, 52% do valor inicial, segundo a Cox Automotive.

Philip Nothard, diretor de inteligência de mercado da Cox Automotive, afirmou que a maior oferta de veículos elétricos novos e usados a preços mais acessíveis deve ajudar a sustentar a demanda, mesmo em caso de redução dos preços dos combustíveis.

“O mercado deve se estabilizar”, disse Nothard. “Duvido muito que veremos uma queda significativa.”

A Agência Internacional de Energia projeta que, mesmo sem novas políticas de incentivo, a frota mundial de veículos elétricos, excluindo motocicletas e triciclos, poderá alcançar 510 milhões de unidades até 2035. Atualmente, a frota é estimada em cerca de 80 milhões de unidades.

“As vendas de carros elétricos atingiram níveis recordes em quase 100 países, o que representa uma mudança estrutural para o mercado automotivo e para o sistema energético global”, afirmou o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol.

A expansão da eletrificação também alcança outros segmentos do transporte. Segundo a AIE, as vendas globais de caminhões elétricos mais que dobraram em 2025. Os mercados de motocicletas e triciclos eletrificados também mantêm trajetória de crescimento, especialmente na Ásia.

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