Cientistas estimam que oceanos da Terra chegaram a -15°C durante período extremo de congelamento

Cientistas estimam que oceanos chegaram a -15°C durante período extremo de congelamento

Cientistas estimaram que os oceanos da Terra podem ter atingido temperaturas próximas de -15°C há cerca de 700 milhões de anos, durante um dos períodos mais extremos da história do planeta. A conclusão foi apresentada em estudo publicado na revista científica Nature Communications e ajuda a explicar as condições ambientais enfrentadas por organismos que sobreviveram quando a Terra esteve coberta por extensas camadas de gelo.

O período é conhecido entre pesquisadores como “Terra Bola de Neve”, uma fase em que grande parte da superfície do planeta teria ficado coberta por gelo com centenas de metros de espessura. Mesmo nesse cenário, os oceanos não congelaram completamente. Segundo o novo estudo, isso ocorreu porque a água apresentava salinidade muito elevada, mais de quatro vezes superior à dos oceanos atuais, o que reduziu seu ponto de congelamento.

A temperatura estimada pelos pesquisadores é cerca de 12°C inferior às temperaturas oceânicas mais frias observadas atualmente. O resultado indica que micróbios, fitoplâncton, algas e formas primitivas de vida animal, como esponjas, enfrentaram condições ainda mais severas do que se imaginava.

O geólogo Ross Mitchell, da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim, coautor do estudo, afirmou que os novos cálculos ampliam a compreensão sobre a intensidade do estresse ambiental naquele período. Segundo ele, os valores de temperatura e salinidade mostram que a vida existente na época precisou resistir a um cenário extremo.

A pesquisa teve como base a análise de antigos depósitos rochosos que estiveram sob o oceano. Esses registros geológicos preservam informações sobre a composição química da água e sobre as condições ambientais em que se formaram. A investigação foi impulsionada por uma questão levantada pelo geólogo Paul Hoffman, da Universidade de Victoria, no Canadá, que buscava entender uma anomalia observada em camadas de ferro depositadas em rochas do antigo fundo marinho.

Cientistas estimam que oceanos da Terra chegaram a -15°C durante período extremo de congelamento

Essas formações de ferro surgiram quando os oceanos receberam pulsos de oxigênio que reagiram com o ferro dissolvido na água. De acordo com os pesquisadores, os depósitos estavam próximos de antigas regiões costeiras onde geleiras encontravam o mar. A água de degelo, rica em oxigênio, infiltrava-se sob o gelo e entrava em contato com o oceano.

O estudo mostrou que os depósitos formados durante a fase da Terra Bola de Neve apresentavam partículas de ferro mais pesadas do que aquelas encontradas em rochas oceânicas mais antigas, datadas de aproximadamente 2,4 bilhões de anos. A partir dessa diferença, os pesquisadores passaram a investigar se a temperatura extremamente baixa do oceano poderia explicar a composição do material.

Os geoquímicos Kai Lu e Lianjun Feng, também da Academia Chinesa de Ciências, calcularam a temperatura necessária para justificar a presença dessas partículas mais pesadas. O resultado apontou para oceanos com temperatura aproximada de -15°C. A equipe também avaliou outras hipóteses, como a possibilidade de que o material tivesse origem na erosão glacial em terra firme ou em fontes hidrotermais, mas a análise indicou que essas alternativas eram menos prováveis.

Para que a água permanecesse líquida em temperaturas tão baixas, os oceanos próximos às margens de gelo precisariam ter salinidade muito superior à atual. Essa concentração elevada de sal teria impedido o congelamento completo e permitido a manutenção de ambientes líquidos, ainda que extremamente hostis.

O geoquímico Timothy Conway, da Universidade do Sul da Flórida, que não participou do estudo, avaliou positivamente a metodologia adotada pelos autores. Segundo ele, a abordagem combina dados experimentais e modelagem teórica, com premissas que fazem sentido dentro do conhecimento científico disponível.

Cientistas estimam que oceanos da Terra chegaram a -15°C durante período extremo de congelamento

A nova estimativa também reacende discussões sobre como a vida conseguiu sobreviver durante a era criogênica, intervalo da história da Terra que inclui episódios de glaciação global. Uma das hipóteses é que organismos simples já estivessem adaptados a ambientes com pouco oxigênio e baixa luminosidade. Outra possibilidade é que parte da vida tenha persistido em fontes hidrotermais, onde organismos poderiam obter energia a partir de reações químicas, independentemente da luz solar.

Pesquisadores também consideram que a vida pode ter sobrevivido em lagoas de água derretida formadas sobre ou dentro do gelo. Ambientes semelhantes existem atualmente na Antártida, onde cianobactérias e algas conseguem viver em condições muito frias e restritas. Esses locais poderiam ter servido como refúgios temporários para diferentes formas de vida durante as glaciações.

A geoquímica Fatima Husain, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que não participou do novo estudo, mas liderou pesquisas sobre o tema, afirma que essas condições superficiais podem ter permitido a persistência e a evolução de formas diversas de vida ao longo dos períodos glaciais.

Outra hipótese aponta que organismos teriam se concentrado nas margens do gelo, onde a água de degelo levava oxigênio para o oceano. O problema, segundo os novos dados, é que esses ambientes também teriam sido extremamente frios e salgados. Ainda assim, há exemplos modernos que sustentam essa possibilidade, como bactérias encontradas em salmouras frias e salgadas sob o gelo do Lago Vida, na Antártida.

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