Pesquisadores identificaram uma nova espécie de animal a partir da análise de um fóssil encontrado em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná. O exemplar tem aproximadamente 400 milhões de anos e pertence a um período muito anterior ao surgimento dos dinossauros, que apareceram na Terra há menos de 250 milhões de anos. A descoberta reforça a importância científica da região paranaense para os estudos sobre a vida marinha pré-histórica.
O animal identificado é um molusco marinho do gênero Actinopteria. A nova espécie recebeu o nome de Actinopteria grahni, em homenagem a um professor sueco que viveu no Brasil e contribuiu para os estudos de fósseis encontrados na região. O trabalho foi desenvolvido na Universidade Estadual de Ponta Grossa pelo professor Elvio Pinto Bosetti e pelo doutorando em Geografia Kevin William Richter, com publicação no periódico científico Historical Biology.
A identificação da nova espécie ocorreu a partir de fósseis localizados em um sítio paleontológico no Jardim Giana, em Ponta Grossa, área conhecida como Curva 2. O local já era conhecido por pesquisadores e havia registros anteriores da presença de exemplares relacionados ao gênero Actinopteria. Estudos feitos ao longo das últimas décadas indicavam que a região preservava importantes vestígios de animais que viveram em antigos ambientes marinhos.
Segundo o professor Elvio Pinto Bosetti, a pesquisa ganhou novo avanço quando Kevin William Richter decidiu retomar as buscas no campo onde exemplares anteriores haviam sido encontrados. Durante esse trabalho, foram localizados cerca de 20 novos fósseis. Entre eles, um chamou a atenção dos especialistas por apresentar características diferentes das espécies já conhecidas.
Ao comentar o processo de identificação, Bosetti afirmou que a descoberta envolve conhecimento técnico, mas também depende das condições encontradas em campo. “O Kevin decidiu que faria um artigo com esses bichos. Ele falou: vou voltar lá no campo onde vocês encontraram e vou procurar mais. Ele achou mais uns 20. Nesses 20, veio uma espécie que o especialista do Museu Nacional disse: olha, isso aqui é uma espécie nova. Encontrar a espécie é sorte, né? Nós mais ou menos sabemos onde procurar, mas encontrar um bicho raro é sorte”, declarou o professor ao g1.
O fóssil analisado pertence ao período Devoniano, fase da história da Terra marcada pela presença de mares antigos e por intensa diversidade de organismos marinhos. De acordo com os pesquisadores, a antiga Bacia do Paraná reunia condições ambientais que favoreceram a preservação desses registros. Muitos fósseis encontrados na região estão associados a eventos naturais extremos, como tempestades, que soterravam organismos e permitiam sua conservação ao longo de milhões de anos.
Bosetti explicou que parte dos fósseis encontrados em Curva 2 está relacionada a esse contexto ambiental. Segundo ele, o Devoniano, há cerca de 400 milhões de anos, corresponde a um período em que a região era ocupada por um mar sujeito a tempestades. Esses eventos, ao provocarem a morte e o soterramento de organismos, contribuíram para a formação do registro fóssil hoje estudado pelos pesquisadores.
Os primeiros exemplares desse grupo de animais em Curva 2 foram encontrados ainda nos anos 1960. A retomada das pesquisas sobre o material permite dar continuidade a uma linha de investigação iniciada há mais de seis décadas. Para a paleontologia, a identificação de uma nova espécie ajuda a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade existente na região muito antes da formação dos ambientes atuais.
Embora seja anterior aos dinossauros, o animal identificado não pertence ao grupo dos répteis pré-históricos. Trata-se de um molusco marinho, o que evidencia a diversidade de formas de vida que já existiam muito antes do domínio dos grandes vertebrados terrestres. A importância do achado está justamente na possibilidade de reconstruir parte da vida em um ambiente marinho de centenas de milhões de anos atrás.
Com a publicação do estudo, o fóssil passa a integrar oficialmente o registro científico de espécies conhecidas. A pesquisa amplia o acervo de informações sobre a fauna do Devoniano no Brasil e destaca o papel de universidades e pesquisadores brasileiros na identificação de espécies fósseis. O caso também demonstra como áreas já estudadas podem continuar revelando novos dados quando submetidas a novas análises e expedições de campo.
A identificação do Actinopteria grahni mostra que o Paraná ainda guarda registros importantes sobre a história da vida no planeta. Para os pesquisadores, o achado representa mais um passo na compreensão dos organismos que viveram em antigos mares brasileiros e confirma o valor científico dos fósseis preservados em Ponta Grossa.
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Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
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