Em 1977, a França realizou a última execução por guilhotina da história moderna. O episódio encerrou quase dois séculos de uso oficial do instrumento e expôs uma transição cultural decisiva na Europa.
Em 10 de setembro de 1977, a França protagonizou um episódio que desafia a percepção comum sobre o que se entende por passado distante. Naquele dia, em uma prisão no sul do país, foi realizada a última execução oficial por guilhotina da história moderna. O fato ocorreu em um contexto histórico marcado por avanços tecnológicos, transformações culturais e consolidação de direitos civis, o que torna ainda mais surpreendente a permanência de um método de punição associado ao imaginário da Revolução Francesa.
A execução aconteceu há apenas 49 anos, intervalo de tempo menor do que o que separa aquele momento do lançamento do primeiro filme da saga Star Wars, um dado que ajuda a dimensionar o quão recente foi o fim dessa prática. O episódio marcou o encerramento definitivo de um instrumento que atravessou séculos, regimes políticos e mudanças profundas na sociedade francesa.
A execução ocorreu na prisão de Baumettes, em Marselha, e o condenado foi Hamida Djandoubi, um imigrante tunisiano sentenciado pelo sequestro, tortura e assassinato de uma jovem de 21 anos. Após um longo processo judicial e a negativa de pedidos de clemência, a pena foi executada de acordo com a legislação vigente à época. O caso se tornaria um marco histórico não apenas pela gravidade do crime, mas por simbolizar o fim de uma era no sistema penal francês.
A guilhotina, frequentemente associada a livros didáticos, gravuras antigas e museus, ainda fazia parte do aparato jurídico de um dos países mais influentes da Europa no final do século XX. A constatação provoca reflexões sobre a lentidão com que determinadas práticas institucionais são abandonadas, mesmo diante de mudanças profundas nos valores sociais e políticos.
Um instrumento criado como símbolo de progresso
A origem da guilhotina remonta ao final do século XVIII, em meio às transformações provocadas pela Revolução Francesa. O instrumento foi concebido como uma alternativa considerada mais racional e menos cruel aos métodos de execução então utilizados. Antes de sua adoção, as penas capitais variavam conforme a condição social do condenado, o que incluía enforcamento, decapitação manual ou suplícios prolongados.
A proposta de padronização ganhou força com o argumento de que a execução deveria ser rápida, eficaz e igual para todos os cidadãos. A máquina passou a ser vista, naquele contexto, como um avanço técnico e jurídico, alinhado aos ideais de igualdade defendidos pelos revolucionários. Em pouco tempo, a guilhotina foi incorporada ao sistema penal francês e se tornou um símbolo da justiça revolucionária.

Durante o período conhecido como Reino do Terror, o uso do instrumento se intensificou e consolidou sua imagem como elemento central da repressão estatal. Com o passar dos anos, porém, a guilhotina deixou de ser apenas um símbolo político e passou a integrar de forma permanente o cotidiano jurídico do país.
Ao longo do século XIX, mesmo com a alternância entre impérios, monarquias e repúblicas, a França manteve a pena de morte e o uso da guilhotina como método oficial de execução. A permanência do instrumento refletia uma concepção de justiça baseada na autoridade do Estado e na ideia de punição exemplar.
Do espetáculo público ao silêncio das prisões
Até o início do século XX, as execuções por guilhotina eram realizadas em espaços públicos e atraíam grandes multidões. Com o tempo, esse caráter espetacular passou a ser questionado. As autoridades decidiram transferir as execuções para o interior das prisões, reduzindo a exposição pública e o impacto social imediato dos atos.
Essa mudança não significou, contudo, o abandono do método. A guilhotina continuou sendo utilizada de forma oficial, agora longe dos olhares da população. A decisão refletia um desconforto crescente com a visibilidade da pena de morte, mas ainda não representava uma ruptura definitiva com a prática.
Foi nesse contexto que ocorreu a execução de Hamida Djandoubi. O procedimento seguiu os protocolos técnicos estabelecidos havia décadas, em uma operação rápida e silenciosa. Apesar disso, o impacto simbólico foi significativo, especialmente porque o caso ocorreu em uma Europa que avançava na consolidação dos direitos humanos.
A proximidade temporal da execução com a abolição da pena de morte evidencia o momento de transição vivido pela sociedade francesa. O episódio de 1977 tornou-se um ponto de inflexão, ao expor a contradição entre valores democráticos emergentes e práticas penais ainda vigentes.

A abolição da pena de morte e o fim definitivo da guilhotina
A repercussão da última execução por guilhotina contribuiu para intensificar o debate sobre a pena de morte na França. Organizações de direitos humanos, setores da sociedade civil e lideranças políticas passaram a questionar de forma mais contundente a compatibilidade da pena capital com os princípios republicanos.
Em 1981, apenas quatro anos após a execução de Djandoubi, a França aboliu definitivamente a pena de morte. A decisão foi tomada durante o governo de François Mitterrand e representou um marco histórico no sistema jurídico do país. Com a nova legislação, qualquer possibilidade de retomada das execuções foi eliminada.
A guilhotina, então, deixou de ser um instrumento ativo da justiça para se tornar um objeto histórico. A última máquina utilizada foi preservada e passou a integrar acervos museológicos, onde é apresentada como testemunho de um período específico da história francesa.
A transformação do instrumento em peça de museu simboliza a mudança de mentalidade ocorrida em poucas décadas. O que foi concebido como avanço humanitário no século XVIII passou a ser visto, no final do século XX, como incompatível com os valores contemporâneos.
Um símbolo que revela as contradições do progresso
A história da guilhotina evidencia como o conceito de progresso não é linear. Práticas consideradas modernas e racionais em determinado período podem se tornar, em poucas gerações, símbolos de um passado incômodo. A permanência do instrumento até 1977 revela a dificuldade de romper com tradições institucionais profundamente enraizadas.
O fato de a última execução ter ocorrido há menos de meio século desafia a ideia de que tais práticas pertencem a um passado remoto. Ao contrário, elas coexistiram com transformações culturais profundas, como a expansão da mídia, o avanço da ciência e a consolidação dos direitos civis.
Hoje, a guilhotina é mais frequentemente associada a exposições, livros e debates acadêmicos do que ao sistema penal. Ainda assim, sua história permanece como alerta sobre os limites do Estado no exercício do poder punitivo.
A última execução por guilhotina na França não representa apenas o encerramento de um método penal, mas a conclusão de um longo processo de transformação social e jurídica. O episódio ocorrido em 1977 evidencia como práticas institucionais podem sobreviver por séculos, mesmo quando os valores da sociedade já começam a apontar em outra direção. Ao abolir a pena de morte poucos anos depois, a França reconheceu a necessidade de alinhar sua legislação aos princípios contemporâneos de direitos humanos.
A guilhotina, hoje restrita aos museus e à memória histórica, permanece como um lembrete de que o progresso ético e jurídico exige revisões constantes e, muitas vezes, decisões difíceis. O fim da lâmina marcou não apenas o término de uma prática, mas a consolidação de uma nova forma de compreender justiça e dignidade humana.
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